O K-POP RETORNA CAUTELOSAMENTE À CHINA APÓS ANOS DE RESTRIÇÃO
Notícia: The Korea Times
Tradução: Beatriz Santos Simões
Fotografia: The Korea Times.
Grupo de Kpop NCT Wish em conferência em Xangai, no dia 30 de março de 2025. Fotografia: cortesia da empresa SM Entertainment e reproduzida no jornal The Korea Times. (Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/entertainment/k-pop/20250507/k-pop-cautiously-resumes-activity-in-china-after-years-of-restrictions).
De acordo com a repórter Pyo (2025), estariam surgindo sinais de que a China estaria afrouxando medidas restritivas em relação a produtos da indústria de entretenimento sul-coreana, incluindo concertos de larga escala, proporcionando um sentimento otimista na indústria do k-pop. Porém, há também dúvidas sobre a possibilidade de reaver o momentum anterior ao chamado “K-pop ban”, “Hallyu Ban” ou “hanhallyeong”, de cerca de dez anos atrás.
Esses sinais de relaxamento se mostraram nas recentes promoções dos idols realizadas pessoalmente em cidades chinesas. Pyo destaca a presença do cantor Mark, do grupo NCT, em uma loja pop- up na província de Guangzhou, em 19 de abril deste ano, para promover seu álbum solo “The Firstfruit”. Sua presença não havia sido divulgada com antecedência, mas sua agência, SM Entertainment, afirmou que 4 mil fãs estavam presentes, ocupando os cinco andares do shopping Jingdong. Outro grupo da mesma empresa, o NCT Wish, também promoveu seu novo mini álbum na cidade de Xangai para cerca de 60 meios de comunicação locais. Outros artistas que realizaram ações promocionais em território chinês incluem os grupos IVE e TWICE, assim como o cantor solo Kim Jae Joong.
O impressionante em relação a essa movimentação da indústria sul-coreana em direção ao território chinês, como aponta Pyo, é que acontece após a suspensão da importação de produtos culturais sul- coreanos em 2016. Neste ano, os Estados Unidos instalaram um escudo antimísseis na fronteira da Coreia do Sul, aumentando as tensões entre China e o país sul-coreano. Apesar do governo de Pequim não ter confirmado, em nenhum momento, a existência desse banimento, as exportações de produtos para a China cessaram. O impacto foi considerável, uma vez que os chineses eram o maior mercado de consumo de k-pop, levando as empresas de entretenimento a mudar o foco para os mercados americano e europeu.
Vale lembrar que, durante o governo de Park Geun Hye, em meio a insegurança regional causada devido aos testes de armamentos da Coreia Popular, foi a aceita pela República da Coreia a instalação de um escudo antimísseis, o THAAD (Terminal High Altitude Area Defense system). A ação seria realizada pelos Estados Unidos, durante o primeiro governo Trump, em 2017. O THAAD é um meio de defesa contra mísseis de alcance curto, médio e intermediário, e seu design pretende interceptar alvos fora e dentro da atmosfera (Lockheed Martin, s.d.). Contudo, o representante do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, alegou que a preocupação de seu país diz respeito ao alcance do radar X-Band, parte do sistema THAAD, afirmando que o alcance deste extrapola as necessidades sul-coreanas de defesa e pode alcançar o território chinês (People’s Daily, 2017).
O governo de Pequim supostamente teria respondido à questão com um boicote econômico não oficial (sem leis, decretos ou regulamentação governamental de qualquer tipo) de produtos culturais sul-coreanos. Conhecido como “k-ban” pela mídia americana e sul-coreana (de publicações em inglês), produtos relacionados à Onda Coreana passaram a enfrentar dificuldades de vendas em território chinês ou mesmo ser excluídos do mercado. Um exemplo disso são as lojas vazias do grupo sul-coreano Lotte em diversas cidades chinesas (Mullany, Gordon, 2017), pois um dos terrenos da empresa foi utilizado pelo governo sul-coreano para a implementação do THAAD (China’s Daily, 2017).
Ainda, Mazur (2020) afirma que “as trocas midiáticas e culturais entre os países se tornaram limitadas, produtos da cultura pop coreana foram banidos de plataformas online e também das redes sociais do país [China] como o Weibo e o Youku”, com a cultura pop se tornando “instrumento de retaliação política e econômica”. Inclusive, a Coreia do Sul teria registrado uma reclamação perante o Conselho do Comércio e Serviços da OMC, embora o governo chinês não tenha explicitamente ligado o boicote de produtos sul-coreanos à instalação do sistema antimíssil (Kim; Chung, 2017).
Nesse sentido, Pyo aponta que, recentemente, alguns gestos políticos têm sugerido uma melhora nas relações. Em novembro de 2024, a China ofereceu a entrada no país de viajantes sul-coreanos sem visto e, de forma recíproca, a Coreia do Sul anunciou em março desse mesmo ano que iria temporariamente dispensar os vistos de entrada para grupos de turistas chineses a partir do terceiro trimestre.
Pyo mostra, ainda, que o mercado de k-pop tem começado a mostrar bons rendimentos de exportação na área. De acordo com dados do Serviço de Alfândega da Coreia do Sul, em 2022 o total de exportação de álbuns de artistas sul-coreanos havia sido de 51,3 milhões de dólares e no ano seguinte, em 2023, o número caiu para 33,9 milhões de dólares. Porém, em 2024, acontece uma alta, chegando em 59,8 milhões de dólares. No primeiro trimestre de 2025, a China Continental teria ultrapassado Japão, Taiwan e os Estados Unidos, importando 12,96 milhões de dólares em álbuns.
Contudo, os grandes shows de música pop sul-coreana ainda não são uma realidade – o último aconteceu em 2016, pelo grupo masculino BIGBANG. Shows de artistas indies e do gênero de hip hop da Coreia do Sul vem acontecendo e, recentemente, o grupo EPEX havia anunciado um concerto de grande escala em Fuzhou no mês de maio. Infelizmente, a agência do grupo, C6 Entertainment, adiou indefinidamente o show, devido à suspensão das atividades do membro Keum por motivos pessoais não especificados (The Korea Times, 2025). Também foi anunciada uma edição do Dream Concert, evento de k-pop mais antigo, que acontecerá em Sanya, uma cidade turística da província de Hainan (China), em setembro de 2025.
De acordo com Pyo, as atividades de grupos de k-pop na China que vinham acontecendo se concentravam em subunidades que incluíam membros chineses desde o início das restrições. A volta de shows em larga escala desperta grande interesse da indústria de entretenimento.
Ao The Korea Times, um profissional anônimo da indústria declarou que “há um crescente sentimento de esperança em relação a cada sinal de que o hanhallyeong esteja se afrouxando”, e continuou: “com o ressurgimento da China como mercado viável, a narrativa de que o k-pop estaria em crise começa a cair por terra”. Porém, o mesmo oficial alerta para a incerteza e volatilidade do mercado chinês.
Além disso, a matéria de Pyo também traz uma fala do crítico de cultura pop Shim Jae Geol, em uma mídia local, que ecoa o mesmo sentimento, que há um risco com a imprevisibilidade política. Assim, “a China é um mercado de alto risco no qual mudanças políticas podem alterar a paisagem da noite para o dia”, relembrando que concertos já foram cancelados sem avisos prévios nos últimos anos desde a instalação de tensões entre os países. Para o crítico, desafios econômicos internos da China podem alterar as expectativas, no caso, em meio as tensões comerciais prolongadas entre China e Estados Unidos, relaxar as restrições sobre produtos sul-coreanos poderia incentivar a demanda interna, mas não há como afirmar que a ânsia de consumo dos chineses seria a mesma de antes das restrições.
REFERÊNCIAS
KIM, Christine.; CHUNG, Jane. South Korea complains to WTO over China response to missile system. Reuters, 20 mar 2017. Disponível em: https://www.reuters .com/article/idUSKBN16R03D/ . Acesso em 12 abr. 2024.
LOCKHEED MARTIN. THAAD. s.d. Disponível em: https://www.lockheedmartin.comen-us/products/thaad.html. Acesso em: 11 abr 2024.
MAZUR, Daniela. O valor político-diplomático da cultura pop: China e Coreia do Sul na Era do THAAD. In.: 3º Seminário Pesquisar China Contemporânea, 2020, Campinas. Anais, v.3, 2019. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/eventos/index.php/chinabrasil/art icle/view/3130/3107. Acesso 09 abr. 2024.
MULLANY, G., GORDON, M. R. U.S. Starts Deploying Thaad Antimissile System in South Korea, After North’s Tests. The New York Times, 06 mar 2017. Disponível em: https://www.nytimes.com/2017/03/06/world/asia/north-korea-thaad-missile-defense-us-china. html Acesso em 11 abr. 2024.
PEOPLE’S DAILY. China’s oppsition to THAAD is justifies, sufficient. 17 mar 2017. Disponível em: http://en.people.cn/n3/2017/0317/c90000-9191946.html. Acesso em: 12 abr. 2024
PYO, Kyung Min. K-pop catiously resumes activity in China after years of restrictions. The Korea Times. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/entertainment/k-pop/20250507/k-pop-cautiously-resumes-activity-in-china-after-years-of-restrictions. Acesso em 25 mai. 2025.
PYO, Kyung Min. EPEX postpones China concert; member Keum suspends activities. The Korea Times. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/entertainment/20250518/k-pop-boy-band-epex-postpones-china-concert-member-keum-suspends-activities .Acesso em 25 mai. 2025.
SOBRE A AUTORA
Beatriz Santos Simões
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
E-mail: biassimoes12@gmail.com
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