Lobotomy Corporation – enfrente o pesadelo neoliberal da Cidade, construa um novo futuro para todos
Por Caio Miranda de Souza
Imagem: Reddit
Fonte: https://l1nq.com/viHiU
A “Onda Coreana” (ou Hallyu, para os mais íntimos) popularizou globalmente diversos produtos culturais sul-coreanos, como música, dramas, filmes e culinária. Contudo, um tipo de b produto cultural também produzido pelos sul-coreanos, mas ainda pouco discutido – muitas vezes até esnobado por estudos acadêmicos devido à sua suposta falta de profundidade – são os videogames. Indo contra está visão, Lobotomy Corporation mostra como os jogos podem, sim, oferecer críticas precisas às verdades profundas da realidade social sul-coreana.
Lobotomy Corporation é um jogo Indie de terror em estilo roquelike (ou seja, com forte foco na repetição e vatiações processuais), lançado em 2018 e desenvolvido pela Project Moon, uma pequena produtora sul-coreana atualmente sediada em Suwon. O jogo está disponível com tradução para o português na plataforma Steam. Embora possua duas continuações (“Library of Ruina” e “Linbus Company”), esta resenha se centrará apenas no primeiro jogo.
Desde o início, é importante destacar que Lobotomy Corporation não é um jogo que agradará a todos: apresenta violência gráfica e trata de temas delicados, como suicídio e experimentos científicos antiéticos em seres humanos. Além disso, sua jogabilidade é desafiadora e, por vezes, frustrante, especialmente para quem não está familiarizado com este tipo de mídia.
Feitas estas ressalvas, sobre o que trata o jogo? Desde o início, o jogador assume o papel de *Gerente” da empresa Lobotomy Corporation (ou apenas Lob. Corp.). Sua missão é coletar energia por meio do gerenciamento das “Anomalias” (Abnormalities), criaturas monstruosas que podem escapar a qualquer momento e dizimar os funcionários. Para auxiliá-lo, o jogador conta com a inteligência artificial (IA) Angela e os “Sefirotes”, gerentes de cad departamento. Com o tempo, e à medida que o jogo se torna mais complexo, uma narrativa rica começa a emergir. Dessa narrativa destaco um ponto específico: o cenário onde tudo acontece, a Cidade.
A Cidade, onde se localiza a Lob. Corp., é apresentada como o último reduto da humanidade após uma hecatombe de proporções inimagináveis (implícita como consequência de guerras e desastres ambientais). A Cidade é dividida em 28 distritos, cada um governado autoritariamente por suas respectivas “Asas” (Wings), megacorporações como a própria Lob. Corp. Esses distritos são marcados por uma forte estratificação social e desigualdade, onde a vida dos pobres e indefesos vale pouco diante dos interesses corporativos e do capital.
A Cidade funciona como um espelho distorcido e exagerado do processo de neoliberalização que marcou a Coreia do Sul especialmente a partir da década de 1980 (Lee; Kim; Wainwright, 2010, p. 359). O jogo expressa a angústia gerada pela falta de seguridade social e pela desigualdade socioeconômica no país. Não por acaso, as “Asas” evocam imediatamente os chaebol, conglomerados industriais familiares com grande poder e influência política na Coreia do Sul. Até mesmo o slogan da Lob. Corp., repetido à exaustão por Angela, “Enfrente o medo, construa o futuro”, carrega em si o tom autoritário de uma promessa de progresso constante, típica da lógica neoliberal. Não lembra, por acaso, o lema “modernização da pátria”, usado pelo ditador do país no século XX Chun Doo-hwan? (Shin, 2006). A linha que distinguir autoritarismo e neoliberalismo parece ser muito fina.
É em oposição ao mal+estar social geral, representado pelo jogo como a “doença da mente”, que uma das personagens, Carmem, busca salvar a humanidade, missão que depois é assumida por Ayin (verdadeiro nome do Gerente). Este consegue quase alcançar esse fim (depois de muita gente ser sacrificada e literalmente moída para tal), representado como uma chuva de luz na Cidade. Contudo, no último momento, Angela, que foi excluída desse “final feliz”, interrompe essa luz, encerrando antecipadamente o processo de cura.
Com este último gosto amargo, Lobotomy Corporation, que às vezes peca por tentar ser chocante demais, parece, sim, ter uma mensagem a transmitir: enfrentar o pesadelo neoliberal da Cidade autoritariamente e sem considerar a todos — mesmo com boas intenções, não parece ser suficiente para se construir um futuro comum. Que todos tenhamos asas para voar rumo a um novo futuro de luz; um futuro que não seja construído apenas por poucos, nem destinado somente a alguns.
Referências
SHIN, Gi-Wook. Ethnic Nationalism in Korea. Genealogy, Politics, and Legacy. Stanford University Press: Califórnia, 2006.
LEE, Seung-Ook; KIM, Sook-Jin; WAINWRIGHT, Joel. Mad cow militancy: neoliberal hegemony and social resistance in South Korea. Political Geography, Oxford, v. 29, n. 7, p. 359-369, Sept. 2010.
Sobre o autor
Caio Miranda de Souza
Graduando em Ciências Sociais pela FFLCH-USP, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela historiografia da arte sul-coreana, em espacial pelas relações entre arte e política. E-mail: moisescaio23@usp.br
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