Os desafios do Japão entre os anos 1970 e 2026 na perspectiva do debate internacional das Shrinking Cities
Por Gisele Yamauchi
Imagem de Dejima, Nagasaki. Disponível em: https://edolegacytravel.metro.tokyo.lg.jp/spots/dejima/. Acesso em 07/07/2026
1. O fenômeno das Shrinking Cities
Ao longo da história, as cidades foram e, ainda são, a expressão da convivência coletiva humana. Assim, por séculos várias cidades sugiram, bem como algumas desapareceram, ou outras encolheram – o que Oswalt (2006) denominou como o fenômeno das shrinking cities1. Pallagst (2014) afirma que se trata de um fenômeno global descompassado de crescimento e decrescimento das cidades, sendo encontrado em todos os continentes do globo terrestre, cuja literatura e estudos, majoritariamente, concentram-se no norte global.
Pallagst (2009) afirma que o conceito de shrinking cities descreve vários tipos de perda de vitalidade industrial e urbana, forte suburbanização, decrescimento e envelhecimento populacional, colapso total de um sistema político (como é o caso da queda da União Soviética). Em períodos mais recentes, entre os anos 1990 e 2020, conforme o Quadro 1, ocorre o fenômeno de cidades que encolhem em cidades que passam por transformações produzidas pela globalização e pela mudança de centralidade econômica, bem como pelas mudanças demográficas, afetando, inclusive, as que estão localizadas em regiões metropolitanas.
Quadro 1 – Os tipos de encolhimento de acordo com distintas causas entre 1990 e 2020
| Declínio Econômico | Mudança demográfica | Suburbanização | Transtorno estrutural | Poluição ambiental |
| Desindustrialização | Envelhecimento populacional | Fuga de pessoas e empregos para os subúrbios | Reorganização Econômica | Desastres naturais |
| Antigas áreas industriais | Baixas taxas de fertilidade | Esvaziamento do centro da cidade | Colapso total de um sistema político | Poluição |
| Áreas periféricas | Áreas de despovoamento | Expansão urbana | Agitação dos reassentamentos | Mudanças climáticas |
| Fechamento de estabelecimentos | Guerra |
Fonte: Pallagst (2014, p. 4).
Segundo a autora, o encolhimento de cidades e regiões está relacionado com paradigmas de planejamento territorial, o que implica uma agenda de pesquisa densa e de longo prazo. As cidades e regiões afetadas têm em comum as formas multifacetadas econômicas e sociais da causa, entretanto, seus efeitos e suas perdas são diferentes. Para entender o porquê de ocorre o fenômeno nas cidades, é preciso considerar as lógicas econômica, social e urbana que contribuíram para o fenômeno de crescimento das grandes cidades industriais. Posto isso, este artigo aborda o caso japonês das Shrinking Cities na perspectiva das oscilações, como o declínio e reorganização econômica) e das mudanças demográficas (encolhimento e envelhecimento populacional), a partir de referências bibliográficas históricas, demográficas e econômicas.
2. Decrescimento Populacional e Oscilações econômicas no Japão
Detentor de uma história milenar de mais de 15.000 anos, o Japão construiu o seu crescimento como nação a partir de um rico passado dos períodos Kofun, Asuka, Nara, Heian, Kamakura, Muromachi, Azuchi-Momoyama, Edo e Meiji. Mas, as reformas realizadas na Era Meiji (1868-1912) romperam com a tradição dos grandes shogunatos e serviram como um grande e importante salto rumo ao seu futuro. No final desse período, a partir da década de 1890, o país passou a ter o grande problema de superpopulação e de pobreza – o que conduziu a uma série de assinaturas de tratados internacionais de imigração com diversos países, inclusive o Brasil (Henshall, 2004; Hobsbawm, 2015).
É sabido que nos períodos Meiji, Taisho e Showa houve o surgimento dos partidos políticos e dos movimentos sociais, a troca de gerações de políticos – que focaram na militarização e a expansão imperialista com envolvimento em guerras. Assim, esboçaram um conjunto de decisões em prol do desenvolvimento econômico por meio de uma rápida e intensa industrialização. Ao mesmo tempo, o país possuía [ainda possui] a escassez de recursos como minérios, petróleo, entre outros, necessários para a continuidade do avanço industrial – iniciada por meio de um conjunto de diversas reformas durante a Era Meiji (1868-1912), que impulsionaram o processo de industrialização. Além disso, a expansão ultramarina japonesa, combinadas com o militarismo e o movimento imperialista, orientada pela busca de acesso às matérias-primas necessárias à sustentação de seu crescimento industrial, contribuíram significativamente para os processos de modernização e ocidentalização do país. Entretanto, já é sabido também que todo esse movimento adotado por outras nações do globo foi um dos fios condutores para a II Guerra Mundial (Henshall, 2004; Hobsbawm, 2013).
Embora o Japão tenha sido uma das nações perdedoras na Segunda Guerra Mundial, o país obteve ajuda de reconstrução dos Estados Unidos, diante da polarização com a nação opositora: a União Soviética durante a Guerra Fria (1944-1991). Watanabe (2015) e Yamauchi (2024) apontam que esse conjunto de ajudas protecionistas por parte dos EUA aos seus novos aliados contra o avanço dos ideais comunistas e o esforço de reconstrução da população japonesa, lograram um novo, rápido e grande crescimento econômico entre as décadas de 1960 e 1980 – tornando-se a segunda maior economia do mundo. Todavia esse crescimento econômico desencadeou um efeito inflacionário por meio da especulação no mercado financeiro e imobiliário, assim, se arrefecendo na década de 1990. Desde então, nesses últimos 30 anos a nação vem decrescendo nos âmbitos econômico e populacional, assim perfazendo um dos maiores desafios para o Japão para o século XXI, conforme as Figuras 1 e 2:
Figura 1 – População japonesa (milhões) por faixa etária entre os anos de 1950 e 2025*

* A partir do ano de 2030, os números foram projetados pelo Fundo Monetário Internacional. Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2024.
Figura 2 – Taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Japão entre os anos de 1888 e 2024

Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2026.
Pelas Figuras 1 e 2 é possível notar que tanto o decrescimento econômico da população japonesa como a taxa de crescimento do PIB, ambos acentuados, ocorrem desde 1973. No caso da economia japonesa, desde a crise do petróleo a economia vem passando pelo processo inflacionário, que piorou com a bolha financeira e crise de superpoupança na década de 1990, principalmente no ano de 1998. Depois desses episódios, a economia nipônica vem colhendo uma série de oscilações de aumento e redução nas taxas de crescimento do PIB entre 1990 e 2008, não havendo, no entanto, uma recuperação econômica das taxas de crescimento do PIB aos patamares do ano de 1972. Além disso, a crise do subprime de 2008 conduziu ao desastroso resultado negativo no mesmo ano. Em 2010, embora colhendo resultados positivos nas taxas de crescimento do PIB, a economia japonesa tornou-se a terceira do mundo, ultrapassada pela China e foi para o quarto lugar, superado pela Alemanha em 2023 (Manpuku, 2023).
No caso da população, desde o Pós-Segunda Guerra Mundial há sinais de retração e de envelhecimento. Embora tenha ocorrido uma ligeira recuperação no crescimento populacional entre os anos de 1968 e 1973, a quantidade populacional não voltou a atingir o nível de 1947. Cerca de 75 anos depois, o Japão continua vivendo o desafio do decrescimento e do envelhecimento demográfico. Embora o governo japonês tenha cunhado algumas políticas públicas de suporte econômico favorecendo os novos casais a terem o primeiro ou mais filhos, essa política não tem colhido bons resultados frente à mudança cultural sobre o tópico casamento e constituição familiar nas gerações mais jovens, principalmente os nascidos entre as décadas de 1980 até 2000. Alguns pesquisadores estimam que há tendências de encolhimento populacional maior no Japão entre 2035 e 2050 – o que, inclusive, coloca em dúvida o futuro do país (Matsutani, 2004).
3. As Shrinking Cities no Japão e os seus desbobramentos
Os estudos sobre as Shrinking Cities no Japão, investigados por Flüchter (2006), Sugiyama et al. (2006), Yahagi (2015) e Yamauchi (2024), nos fornecem um exemplo de combinação de decrescimento econômico e populacional. Segundo os autores, houve a queda na taxa de fecundidade e o envelhecimento da população, os quais são a base de explicação da proliferação de pequenas e médias cidades e subúrbios japoneses com essa problemática. Embora em 2007, a população do Japão tenha atingido o pico de 127.770.000 pessoas, a partir desse mesmo ano, o país manteve o decrescimento da população. Ademais, há previsões – conforme a Figura 1 – que a população nipônica deverá ser de 100.000.000 de pessoas em 2050 e 85.000.000 de habitantes em 2065 – perfazendo uma queda de 21,73% e de 33,47% em relação ao ano de 2007. Um reflexo dessa redução populacional é o número cada vez maior de cidades que encontram-se encolhendo (Flüchter, 2006; Sugiyama et al., 2006).
Segundo dados do Banco de Desenvolvimento Japonês (DBJ, 2005; 2009), entre os anos de 1990 e 2007, cerca de 26,7%, ou seja, 70 das 262 cidades japonesas com população acima de 100.000, perderam habitantes. Ainda nessa linha, entre os anos de 2006 e 2007, o índice percentual dessas cidades em que ocorreu o encolhimento populacional saltou para 45,8% e no ano de 2020, quase metade dessas cidades encontram-se ainda no processo de encolhimento populacional.
Martinez-Fernandez et al. (2015) destacam que uma análise geral das tendências demográficas do Japão entre 1960 e 2005 evidencia três aspectos centrais da evolução populacional do país. O primeiro indica que os dados das 47 províncias japonesas passaram a apresentar declínio natural da população entre 1990 e 1995, período em que o número de óbitos ultrapassou o de nascimentos. Esse fenômeno se intensificou nos anos posteriores, de modo que 21 prefeituras registraram redução natural da população entre 2000 e 2005. O segundo aspecto diz respeito à dimensão espacial da mobilidade populacional durante os anos de forte crescimento econômico a partir da década de 1960, quando 36 prefeituras perderam habitantes em razão da migração interna de jovens trabalhadores para grandes regiões metropolitanas. Apesar de uma breve reversão, essa dinâmica persiste até hoje, contribuindo para que muitos centros regionais se reduzam a áreas rurais com baixa densidade populacional (Martinez-Fernandez et al., 2015). O terceiro ponto aborda as consequências dessa mobilidade: a intensificação da concentração populacional nas principais áreas metropolitanas, como Tóquio, Nagoya, Osaka e Fukuoka. Entretanto, a partir de 1970, a região de Osaka começou a enfrentar declínio econômico, tornando o encolhimento urbano uma característica marcante. Por outro lado, na década de 1980, Tóquio consolidou-se como uma cidade global. Esse processo também impactou cidades vizinhas, como Yokohama, Kawasaki, Chiba e Saitama, que receberam grandes fluxos migratórios internos, formando a ampla Região Metropolitana de Tóquio (Martinez-Fernandez et al., 2015).
Matsutani (2004) e Sato (2006) afirmam que os estudos sobre o fenômeno das cidades em retração no Japão têm se ampliado nos últimos anos, concentrando-se, em sua maioria, nos possíveis efeitos de longo prazo da contínua perda populacional sobre o crescimento econômico – o que impõe um grande desafio no planejamento das cidades e de políticas públicas. Os autores complementam que não houve uma atenção significativa ao caráter aparentemente irreversível do encolhimento populacional na maioria das cidades com mais de 100 mil habitantes. Ademais, segundo os autores, não houve investigações aprofundadas sobre os fatores que levam a esse processo ou a discussão novas perspectivas, alternativas ou discussões de ações voltadas ao desenvolvimento urbano.
Martinez-Fernandez et al. (2015) indicam que as primeiras pesquisas sobre o encolhimento urbano no Japão surgiram por volta de 2005, introduzindo sobretudo o debate a partir da experiência alemã e de suas políticas voltadas a cidades em declínio. Além disso, o envelhecimento populacional no Japão é considerado uma questão crítica entre os países desenvolvidos, estimando-se que, até 2050, aproximadamente uma em cada duas pessoas e meia terá mais de 65 anos (Oba, 2008; Omura; Arita, 2005).
O caso japonês da cidade de Nagasaki2 mostra o quanto o encolhimento, com perda da população jovem e o aumento do envelhecimento, requer maior participação e organização social. É necessário abarcar instituições públicas, privadas e a participação populacional para cunhar melhores políticas públicas em prol da manutenção dos serviços de água, gás, eletricidade, esgoto, transporte público e outras infraestruturas vitais, principalmente para os mais desfavorecidos (Sugiyama et al., 2006, Yahagi, 2015, Yamauchi, 2024). Nesse contexto de perda da população jovem em pequenos municípios para os grandes centros urbanos no Japão, Martinez-Fernandez et al. (2015) executaram um estudo específico que examina a complexa relação entre o encolhimento das cidades e a globalização, o que impôs mudanças de estilo de vida, ampliando a suburbanização e impôs novos desafios nas estruturas econômicas do país. Os autores mapearam os tipos de encolhimento e os mecanismos condutores nacionais e internacionais na Austrália e no Japão, conforme expresso no Quadro 2.
Quadro 2 – Os tipos, as características e os mecanismos condutores nacionais e internacionais do encolhimento urbano no Japão
| País | Tipo de Encolhimento | Mecanismos condutores nacionais e globais |
| Japão | Cidades e regiões rurais: despovoamento e redução devido à migração de jovens trabalhadores para as áreas metropolitanas. Encolhimento irreversível de cidades pequenas e médias (100.000 habitantes)Tipos de encolhimento: Centros de mineração (por exemplo, Omuta). Centros têxteis, de papel e de construção naval (por exemplo, Kiryu, Imabari, Kure). Centros de distribuição agrícola (por exemplo, Ichinoseki) Centros de pesca e comércio (por exemplo, Otaru) | Domínio da região da cidade global de Tóquio – polo industrial global da megalópole de Tokaido. Envelhecimento da sociedade, declínio acentuado da população devido à baixa fertilidade. Aumento da posse de automóveis e suburbanização. Concentração populacional em áreas metropolitanas (por exemplo, Tóquio, Nagoya, Osaka, Fukuoka). Reestruturação global nas indústrias têxtil, de papel e de construção naval que se deslocam para países em desenvolvimento. Perda da produção agrícola doméstica através do comércio global. Conteinerização global de portos favorecendo grandes portos. |
Fonte: Parte extraída de Martinez-Fernandez et al. (2015, p. 36 – Tradução nossa).
A partir do Quadro 1 desenhado por Martinez-Fernandez et al. (2015, p. 36), Yamauchi (2024) destacou a emigração da população jovem das pequenas cidades para as grandes áreas metropolitanas provenientes de cidades médias e pequenas do interior.
Quadro 3 – Políticas Públicas de respostas diante da problemática do encolhimento no Japão
| – Estrutura de planejamento altamente centralizada na 2ª metade do século 20: os governos locais têm apenas “30% de autonomia” do governo central. Foco da política: impacto nacional de longo prazo no crescimento econômico de uma sociedade em retração; |
| – Século 21: descentralização e mais autonomia local provocaram uma competição acirrada por turismo e crescimento entre as cidades cada vez menores. |
| – Planejamento urbano aceitando encolhimento e improvável crescimento populacional futuro. |
| – Mudança para o novo localismo. |
| – Recrutamento agressivo de migrantes domésticos e indústrias do turismo cultural e patrimonial. |
Fonte: Martinez-Fernandez et al. (2015, p. 36 – Tradução nossa).
No Quadro 3, elaborado por Martinez-Fernandez et al. (2015, p. 36), é possível observar que houve a aceitação da convivência por parte do governo nipônico do decrescimento populacional entre os anos de 2000 e 2015. Embora tenham adotado políticas localistas permitindo maior autonomia, essa combinação com a descentralização, que somadas com as oscilações econômicas e mudanças tecnológicas causadas pela nova ordem global3, os grandes centros urbanos levaram maiores vantagens, pois tendem a atrair e concentrar os maiores e os melhores investimentos diante da hierarquia global de cidades (Yamauchi, 2024).
Embora o Japão seja um grande país desenvolvedor de tecnologia, na visão de Martinez-Fernandez et al. (2015) todos os esforços pelo governo japonês na tentativa de alçar novas políticas públicas que lidem com o encolhimento das cidades e a perda populacional são de conformação da realidade, parece ser irreversível. Cabe acompanhar os desdobramentos das políticas públicas japonesas, principalmente, de incentivar as famílias a terem filhos.
Além disso, há um grande debate sobre a questão das leis de imigração, tanto para familiares japoneses que se mudaram para outros países, as suas gerações de descendentes permanecerem no Japão e para o estabelecimento de imigrantes no geral. Por ser uma população praticamente homogênea, com apenas 1,7% de estrangeiros vivendo no Japão, trata-se de um grande desafio a ser discutido e superado pela população japonesa e o seu governo – que neste momento encontra-se num grande embate entre a aceitação e a rejeição aos novos imigrantes no país (Exame, 2025).
Entretanto, essas políticas de grande anuência expressadas por Martinez-Fernandez et al. (2015, p. 36) parecem ter fim. Segundo Seta (2024), entre os anos de 2015 e 2022, o Japão adotou o 5º Plano Nacional de Ordenamento do Território, que aborda explicitamente: a) o declínio e o envelhecimento da população; b) a necessidade de limitar a expansão de áreas residenciais; c) a manutenção de ambientes habitáveis apesar da redução populacional. Ainda nesse contexto, Seta (2024) mostra que os Planos Nacionais de Ordenamento do Território (PNOT) tornaram-se uma das ferramentas de planejamento utilizadas para responder ao “encolhimento das cidades”, por meio de: a) estabelecimento de metas para áreas residenciais (às vezes visando a redução ou consolidação); b) Incentivo a formas urbanas mais compactas (pelo menos em princípio); c) coordenação de ajustes no uso do solo entre municípios. Por serem ainda políticas públicas recentes, os resultados delas apresentados por Seta (2024) são preliminares, pois verificou-se que as áreas residenciais continuaram a aumentar em escala regional, mesmo com o declínio populacional. Na visão da autora, a redução não acompanha o declínio populacional em escala regional, bem como foi também constatado que a quantidade de área residencial variou mais de perto com a mudança no número de domicílios do que com a população. Isso mostra que são necessários novos ajustes das políticas públicas objetivando atingir os objetivos do 5º Plano Nacional de Ordenamento do Território no Japão, que esteve vigente entre os anos de 2015 e 2022.
Tendo em vista a grande problemática, atualmente, em 2026, o 6º Plano Nacional de Ordenamento do Território no Japão encontra-se vigente. Adotado desde o ano de 2023, este novo plano busca ajustar os mecanismos e corrigir os erros nas conduções de políticas públicas em relação ao encolhimento populacional. De um lado, esse tipo de plano tem cada vez mais buscado definir as diretrizes macroespaciais, objetivos e instrumentos para organizar o território nacional, articulando níveis nacional, regional (prefeituras) e municipal, por meio dos seguintes eixos: a) contexto estrutural: o Japão como laboratório de “shrinking society”; b) princípio central do plano: compacto e em rede [“compact + network”]; c) shrinking cities: da expansão ao “smart shrinking”; d) envelhecimento populacional como eixo estruturante; e) infraestrutura: de expansão para a manutenção seletiva e; f) promoção do crescimento econômico diante do contexto de declínio populacional. Por outro lado, ele enfrenta uma grande resistência local e o custo político nas ações que levam à aceitação da retração, provocada pelas desigualdades regionais entre as áreas rurais e urbanizadas (Kato, 2023). Em suma, por ser ainda novo será preciso acompanhar os desdobramentos das ações do 6º Plano Nacional de Ordenamento do Território no país para colher os dados, analisar, discutir e avaliar se as ações tomadas em prol de transpor os desafios que se impõem à sociedade nipônica obtiveram sucesso.
4. Conclusões e lições deixadas acerca do caso japonês das Shrinking Cities
Foi esboçado de forma introdutória o conceito sobre as Shrinking Cities e ela se manifesta para o caso japonês. Apresentou-se de forma breve o caso da cidade de Nagasaki e pudemos observar que as pequenas e as médias cidades têm perdido parte de sua população jovem para os grandes centros metropolitanos. Conforme já apresentado, esses grandes centros (Tokyo, Nagoya, Osaka, entre outros) levam grandes vantagens de atratividade e de aglomeração de investimentos produtivos industriais e de tecnologia para a nova era da informação.
Os desafios do encolhimento, de envelhecimento populacional, de esforço de revitalização regional diante das oscilações econômicas, demográficas e de sustentabilidade permanecem, principalmente, tratando-se de que o governo japonês adotou a partir de 2023 o 6º Plano Nacional de Ordenamento do Território. Os fatos apresentados neste artigo demonstram que a problemática é complexa, ainda que o país detenha um grande poder produtivo e tecnológico. Como trata-se de um Novo Plano Nacional de Ordenamento do Território, é preciso acompanhar os desdobramentos, as correções, as efetivações das novas políticas públicas por mais tempo para sejam apresentadas as adversidades, as oportunidades e os novos resultados obtidos de forma multinível pela nação nipônica.
Por fim, é preciso que os planejadores e os institutos de planejamento urbano brasileiro conheçam e aprendam por meio da experiência nipônica de planejamento urbano na perspectiva das shrinking cities – com o foco no decrescimento e no envelhecimento de sua população. Considerando-se esse caso citado do Japão, pergunta-se: Será que esses desafios poderão ocorrer no Brasil no futuro? Os resultados econômicos e sociais tendem a ser piores, pois além de o Brasil ainda não ter alcançado tamanha evolução tecnológica industrial, encontram-se em andamento no país a desindustrialização precoce, a inversão da pirâmide etária e o encolhimento demográfico. Isso demonstra que é preciso planejar estrategicamente cidades melhores, inclusive em períodos de encolhimento, principalmente que busquem oferecer e promover sustentabilidade econômica, social, urbana e ambiental frente a esses desafios em comum entre os dois países no século XXI.
Referências
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- Em português o termo adotado por Yamauchi (2024) para das “shrinking cities”, no idioma inglês, foi cidades que encolhem.
↩︎ - A cidade de Nagasaki é portuária e está localizada no Sudoeste do Japão, na província de Nagasaki. Embora tenha sido o palco do segundo ataque de bomba nuclear de plutônio, levando à sua destruição e dizimando grande parte da população, hoje, no século XXI, a cidade de Nagasaki é um importante porto e possui uma rica indústria de construção naval. Para saber maiores detalhes de como as autoridades locais lidaram com os problemas advindos do encolhimento populacional, oscilações econômicas e o desenho de políticas públicas, consulte Sugiyama et al. (2006), Yahagi (2015), Yamauchi (2024). ↩︎
- Quando se fala nos mecanismos indutores do fenômeno das cidades que encolhem no Japão, ainda que seja um país detentor de grande tecnologia, ocorre uma fase de reestruturação produtiva causada pela ascensão da China, pela nova onda de globalização produtiva para países como Vietnã, Malásia, Indonésia, entre outros. Ademais, isso também ocorre no meio de incertezas econômicas globais e pelas oscilações diplomáticas com a China, Taiwan, entre outros países e pelo movimento de reshore industrial para o país. Esse movimento busca trazer de volta a produção industrial de suas grandes indústrias nacionais, que foram transferidas para outros países, após um grande período de internacionalização produtiva. ↩︎
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