“Se a vida te der tangerinas”: a beleza da vida ordinária sob uma lente sociológica

“Se a vida te der tangerinas”: a beleza da vida ordinária sob uma lente sociológica

Por Bruna Santana

Imagem: Se a vida te der tangerinas.

Disponivel em: https://contigo.com.br/noticias/tv/parte-2-do-dorama-se-vida-te-der-tangerinas-da-netflix-ganha-trailer.phtml

O k-drama sul-coreano “Se a Vida Te Der Tangerinas” é uma obra sensível e profunda que transforma a simplicidade do cotidiano em poesia audiovisual. Longe de tramas mirabolantes ou efeitos dramáticos exacerbados, a narrativa se ancora em uma estética minimalista e intimista para revelar as complexidades da existência comum. Com uma fotografia cálida, trilha sonora suave e diálogos singelos, o k-drama convida o espectador a desacelerar e observar — e é justamente nesse gesto que reside seu maior mérito.

Do ponto de vista sociológico, o k-drama pode ser interpretado como um exemplo notável do que Michel de Certeau (1994) chama de “as artes de fazer” — práticas cotidianas que os sujeitos utilizam para construir significados em suas vidas. A protagonista, uma jovem que retorna à sua cidade natal após anos vivendo em Seul, se depara com a rotina bucólica do campo, com suas colheitas de tangerinas, cafés pequenos e vizinhos que se conhecem pelo nome. Ali, ela ressignifica sua trajetória pessoal, redescobrindo vínculos familiares e afetivos, ao mesmo tempo em que redimensiona o que compreende por sucesso e felicidade.

A beleza da obra está na sua recusa em romantizar a vida rural ou demonizar a vida urbana. Em vez disso, a série articula nuances, mostrando que a subjetividade humana se constrói nos entremeios — nas pausas do trabalho, nas conversas com estranhos, nas caminhadas ao entardecer. A influência de Georg Simmel (1950) é perceptível na forma como o drama explora as microinterações sociais e os pequenos gestos que sustentam as relações interpessoais, conferindo profundidade emocional a momentos que, à primeira vista, poderiam parecer banais.

Ao tematizar a vida ordinária, a narrativa valoriza o que Erving Goffman (1959) descreve como “a apresentação do self na vida cotidiana”. A personagem principal se reconecta com sua identidade por meio de performances sociais aparentemente triviais — ajudar uma senhora a colher frutas, ensinar uma criança a desenhar, preparar chá para um amigo triste. Esses atos, ainda que pequenos, carregam potências simbólicas e afetivas que desafiam a lógica produtivista e imediatista tão presente nas sociedades contemporâneas.

O título da série, “Se a Vida Te Der Tangerinas”, já aponta para uma filosofia do cotidiano inspirada no acolhimento do acaso e no florescimento da simplicidade. A metáfora da tangerina — uma fruta comum, mas de sabor singular — funciona como alegoria da existência: aquilo que é comum pode ser extraordinário, desde que visto com atenção e sensibilidade. Essa proposta se alinha à fenomenologia do cotidiano de Alfred Schütz (1967), para quem o mundo da vida (Lebenswelt) é um campo legítimo de sentido e ação, estruturado por experiências práticas e subjetivas.

Além disso, o k-drama dialoga com a crítica de Zygmunt Bauman (2001) à modernidade líquida, ao oferecer uma narrativa que valoriza a permanência, os laços duradouros e os afetos comprometidos. Em um tempo em que tudo se desfaz com rapidez — vínculos, certezas, rotinas —, a série propõe um retorno à solidez do simples: cozinhar com alguém, cuidar de uma planta, esperar a estação certa para colher.

“Se a Vida Te Der Tangerinas” é, portanto, mais do que uma história de reencontro ou reconciliação; é uma celebração das experiências comuns que nos constituem enquanto sujeitos sociais. Sua contribuição está em lembrar que a beleza da vida não está apenas nos grandes acontecimentos, mas nos pequenos rituais diários que nos conectam com o outro e conosco. A obra é um convite sociológico e poético a (re)aprender a ver o mundo com os olhos da delicadeza.

Nesse sentido, “Se a Vida Te Der Tangerinas” não apenas encanta por sua estética serena, mas também instiga reflexões sobre a forma como vivemos, percebemos o tempo e nos relacionamos com os outros e com nós mesmos. Ao transformar o ordinário em objeto de contemplação, o drama nos lembra que há potência nas pequenas escolhas, nos vínculos silenciosos e nos afetos não espetaculares. É uma narrativa que resiste à velocidade e ao ruído da modernidade, propondo outra temporalidade — mais lenta, mais atenta, mais humana. Assim, o k-drama reafirma o valor da arte como ferramenta de sensibilização e crítica social, e nos convida a cultivar, como quem cuida de uma tangerineira, uma vida em que o simples volte a ter lugar.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

GOFFMAN, Erving. A apresentação do eu na vida cotidiana. Rio de Janeiro: Zahar, 1959.

SCHÜTZ, Alfred. Fenomenologia do mundo social. Petrópolis: Vozes, 1967.

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais de sociologia. São Paulo: Zahar, 1950.

SANTOS, Fernanda. Se a vida te der tangerinas: novos episódios têm paixão, choro e casamento. Revista Claudia, 2024. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/cultura/se-a-vida-te-der-tangerinas-novos-episodios-tem-paixao-c horo-e-casamento/. Acesso em: 13 maio 2025.

SOBRE A AUTORA

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).

E-mail: BRUNAGLAUCYAS@GMAIL.COM

 

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