A emergência da cultura queer na Coreia do Sul contemporânea: identidade, resistência e reconhecimento

A emergência da cultura queer na Coreia do Sul contemporânea: identidade, resistência e reconhecimento

Por Bruna Santana

Imagem: Bandeira LGBTQIA +. Disponível em: https://l1nk.dev/Jiw9U. Acesso em: 19 maio 2025.

Nas últimas décadas, a Coreia do Sul tem passado por transformações culturais profundas, marcadas pela tensão entre uma tradição social conservadora e uma juventude cada vez mais conectada com os debates globais sobre diversidade, direitos e subjetividades. Neste cenário, a cultura queer tem emergido como uma das expressões mais significativas da mudança sociocultural em curso. Especialmente por meio da literatura, da arte e do cinema, artistas e escritores queer vêm conquistando espaços de visibilidade, provocando debates públicos e desafiando estruturas normativas que por muito tempo silenciaram corpos e vozes dissidentes.

A literatura queer, em particular, tem se destacado como uma arena importante para a afirmação de identidades não hegemônicas. Autores como Kim Hyun e Kang Hwa Gil abordam temas como amor, dor, marginalidade e pertencimento, a partir de perspectivas que rompem com o padrão heteronormativo dominante. Suas obras não apenas narram experiências individuais, mas também funcionam como instrumentos de crítica social e reposicionamento simbólico. Ao tratar de relações afetivas queer com sensibilidade e profundidade, esses autores contribuem para a construção de uma nova gramática do afeto e da identidade na sociedade sul-coreana.

Do ponto de vista teórico, essa produção pode ser compreendida a partir das reflexões de Stuart Hall (2006), que entende a identidade como uma construção discursiva, em constante processo de negociação. A cultura queer, nesse sentido, não representa apenas uma vivência individual ou um grupo social específico, mas é, sobretudo, um campo de disputas simbólicas onde novos significados sobre o corpo, o gênero e o desejo são continuamente elaborados. Judith Butler (2003), por sua vez, propõe que o gênero é performativo, ou seja, não é uma essência, mas uma repetição de atos regulados socialmente. A arte queer sul-coreana torna visível essa performatividade ao desestabilizar normas, questionar o que é considerado legítimo e criar espaços de existência para o que antes era invisível.

Essa visibilidade, no entanto, não se dá sem conflitos. A sociedade sul-coreana, apesar dos avanços, ainda mantém políticas conservadoras e padrões sociais restritivos. Obras queer continuam sendo alvo de censura, e pessoas LGBTQIA+ frequentemente enfrentam discriminação em diversas esferas da vida cotidiana. Nesse contexto, a emergência da cultura queer deve ser compreendida também como um ato de resistência. Conforme Foucault (1979) nos alerta, os discursos sobre sexualidade e corpo não são neutros: eles operam como mecanismos de poder, regulando comportamentos e delimitando o que pode ou não ser dito, vivido, representado. Ao desafiar essas fronteiras, a arte queer não apenas denuncia, mas também cria — novos modos de existir, novas formas de narrar e, sobretudo, novas possibilidades de futuro.

A crescente projeção internacional da literatura queer sul-coreana, reconhecida em premiações e traduzida para diversos idiomas, evidencia que essas narrativas locais reverberam globalmente. Elas trazem à tona questões universais sobre liberdade, pertencimento e reconhecimento, conectando-se com movimentos mais amplos por direitos e justiça social. Assim, a cultura queer que emerge na Coreia do Sul não é apenas reflexo de mudanças internas, mas também parte ativa de uma conversa transnacional sobre diversidade, identidade e humanidade.

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

KIM, Hyun. For Our Daughters. Seul: Changbi Publishers, 2019.

LEE, Kang Hwa Gil. Cheolhwa-ui Bang. Seul: Minumsa, 2017.

O GLOBO. Militar sul-coreano é condenado por ser gay. O Globo, Rio de Janeiro, 25 maio 2017. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/militar-sul-coreano-condenado-por-ser-gay-21391171 . Acesso em: 09 maio 2025.

GUIMARÃES, Ana Cláudia. Autor fala sobre a ‘resistência’ da literatura queer sul-coreana. Veja, Coluna Giro pelo Oriente, 11 abr. 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/giro-pelo-oriente/autor-fala-sobre-a-resistencia-da-lite ratura-queer-sul-coreana/. Acesso em: 10 maio 2025.

SOBRE A AUTORA

Graduada em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).

E-mail: brunaglaucyas@gmail.com 

 

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