“Não temos homossexuais na Coreia”: desafios enfrentados por homens homossexuais na Coreia do Sul
Por Caio Miranda de Souza
Imagem: Engoo/
Seo Dong-Jin (2001) emprega a expressão “inexistência social da homossexualidade” para apontar que o tipo de relação que historicamente se constitui entre o Estado sul-coreano (e seus porta-vozes) e homens homossexuais (e outros que também se atraem sexual e/ou afetivamente por outros homens) não é nem de apoio, nem de uma direta hostilidade, mas sim de uma total desconsideração. A partir daquilo que Todd A. Henry (2020) chama de “mito do ‘sem gays’”, a inexistência social imposta sobre essas pessoas fez com que muitas delas se tornassem apenas uma nota de rodapé na história (às vezes, nem isso). Esse mito é reproduzido pelos cidadãos comuns e até pela mídia: por exemplo, John (Song Pae) Cho (2020) conta que, durante o auge da epidemia de AIDS no Ocidente nos anos 1980, um jornalista chegou a declarar: “a Coreia do Sul não tem nada com que se preocupar, já que não temos homossexuais”.
Por um lado, de forma geral, historicamente o Estado sul-coreano não buscou ativamente punir essa parte da população, nem desenvolveu mecanismos legais-jurídicos que fossem constituídos especificamente para isso. Embora, como aponta Todd A. Henry (2020), existam relatos de casos em que as autoridades sul-coreanas autoritárias das décadas de 1950 a 1980 rotularam como membros ou aliados do “perigoso inimigo comunista do Norte” indivíduos cujas práticas sexuais ou de performatividade de gênero consideravam como disruptivas.
Por outro lado, o Estado também não buscou garantir direitos a essas pessoas, nem produzir instrumentos legais para protegê-las de ataques e injúrias discriminatórias. Até hoje, por exemplo, o país não reconhece o direito de casamento ou de união civil entre pessoas do mesmo gênero ou o seu direito de adotarem. Segundo Timothy S. Rich (2023), a ideia de que relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero deveriam ser classificados jurídico-medicalmente como “perigoso e obsceno” só caiu em desuso em 2003!
Outro elemento central para a situação é a descriminação social enfrentada por homens sul-coreanos homossexuais. Em uma pesquisa realizada com um grupo de 1300 sul-coreanos em 2023, Timothy S. Rich (2023) aponta que surpreendentes 48,77% dos entrevistados discordaram em algum nível da legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero. A pesquisa realizada pelo autor, e que, de forma geral, corrobora com os resultados de outras pesquisas do formato (Henry, 2020), mostra que, apesar de que cada vez mais os jovens sul-coreanos se mostram mais abertos para esses direitos como um todo, a população sul-coreana tende a permanecer desconfiada desse projeto.
Um exemplo dessa desconfiança é apontado por Young-gwan Kim e Sook-Ja Hah (2006), que mostram como, atualmente, existe um desconforto entre sul-coreanos em reconhecer a possibilidade de que, historicamente, xamãs coreanos e artistas do namsadang se associaram, além de suas atividades artísticas-religiosas, a práticas de transvestismo e de prostituição homossexual.
Outro exemplo desse desconforto aparece na forma com que os sul-coreanos lidam com o fato de que a homossexualidade permeava as vivências dos jovens homens nobres que constituíram, durante o antigo reino coreano de Silla (57 a.C. -668), o grupo de guerreiros de elite Hwarang, símbolo do orgulho histórico do povo coreano. Young-gwan Kim e Sook-Ja Hah (2006) argumentam que a importância que esses guerreiros atribuiam ao hyangga (erotismo e êxtase) e a evidente apreciação sexual que eles mantinham entre si é articulada nos atuais usos de palavras como hwallyangi e hwangangnom, que se referem a “playboys”, “caras relaxados”, e no tom, subsumido nestes termos, de uma associação desses esteriótipos à homossexualidade.
A atual vergonha e desaprovação entre muitos sul-coreanos da homossexualidade entre esse grupo de guerreiros da antiguidade funciona quase como uma homologia da desaprovação sistêmica que, até hoje, os militares homossexuais do país passam. Se tendência assumida pelas autoridades estatais sul-coreanas foi uma posição implícita de “inexistência da homossexualidade”, o Exército ativamente puniu e ainda pune, a partir do Artigo 92-6 da Lei de Criminal Militar de 1961, homens que engajassem em sexo anal com outros homens ou que se relacionassem homoafetivamente entre si. Desde 2002, conta Ryan Thoreson (2023), o Tribunal Constitucional da Coreia do Sul analisou quatro pedidos de contestações contra o artigo, mas optou por mantê-lo como constitucional.
A homossexualidade (e a vida geral da comunidade LGBTQIA+) na Coreia do Sul, embora haja o esforço de ativista e militantes, ainda se constitui como um certo tabu. Entender a lógica desse tabu é a melhor forma, acredito, para se opor a ele.
Referências
CHO, John (Song Pae). The three faces of South Korea’s male homosexuality: Pogal, Iban, and neoliberal gay. In: HENRY, Todd A. Queer Korea. Durham: Duke University Press, 2020. p. 263–294.
HENRY, Todd A. Introduction: Queer Korea: Toward a Field of Engagement. In: HENRY, Todd A. Queer Korea. Durham: Duke University Press, 2020. p. 1–54.
HENRY, Todd A. Queer lives as cautionary tales: female homoeroticism and the heteropatriarchal imagination of authoritarian South Korea. In: HENRY, Todd A. Queer Korea. Durham: Duke University Press, 2020. p. 205–259.
KIM, Young-Gwan; HAHN, Sook-Ja. Homosexuality in ancient and modern Korea. Culture, Health & Sexuality, v. 8, n. 1, 2006. DOI: https://doi.org/10.1080/13691050500159720. Acesso em: 29 maio 2025.
RICH, Timothy S. Survey: South Korea’s LGBT Community Faces a Hurdled Road to Same-Sex Equality. The News Lens International, 25 out. 2023. Disponível em: https://international.thenewslens.com/article/186625. Acesso em: 29 maio 2025.
SEO, Dong-Jin. Mapping the vicissitudes of homosexual identities in South Korea. Gay and Lesbian Asia, p. 65–79, 2013. Disponível em: https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315877143-4/mapping-vicissitudes-homosexual-identities-south-korea-seo-dong-jin. Acesso em: 29 maio 2025.
THORESON, Ryan. South Korean Court Upholds Military ‘Sodomy’ Law: National Assembly Should Repeal Archaic Anti-LGBT Provision. Human Rights Watch, 30 out. 2023. Disponível em: https://www.hrw.org/news/2023/10/30/south-korean-court-upholds-military-sodomy-law. Acesso em: 29 maio 2025.
Sobre o autor
Caio Miranda de Souza
Graduando em Ciências Sociais pela FFLCH-USP, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela historiografia da arte sul-coreana, em especial pelas relações entre arte e política. E-mail: moisescaio23@usp.br
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