Arquivos do Massacre de Jeju são reconhecidos pela UNESCO: o que isso significa para a memória?
Por Clara Menezes
Imagem: A escultura “Biseol”, no parque, homenageia Byeon Byeong-ok, uma mulher local de 25 anos que morreu com sua filha de 2 anos ao pé de um cone vulcânico próximo. (Tradução própria)
Fonte: http://jeju43peace.org/national-teachers-jeju-4-3-job-training-4-3-peace-education-spread-2/]
Documentos sobre o Massacre de Jeju foram adicionados ao Memória do Mundo, programa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), que reconhece e identifica arquivos com o objetivo de preservar a memória e difundir informações sobre o patrimônio histórico da humanidade. A decisão ocorreu no dia 11 de abril, durante uma sessão da Unesco em Paris (Kim, 2025).
O material incorporado, chamado de “Revealing Truth: Jeju 4.3 Archives”, consiste em 14.673 documentos sobre o massacre, as décadas de trabalho em prol de descobrir a verdade acerca da tragédia e o processo contínuo de reconciliação. Há testemunhos de familiares de vítimas, conteúdos oficiais de prisões e instituições militares, além de projetos de grupos civis e de investigações promovidas pelo governo (Kim, 2025).
A inclusão de arquivos do Massacre de Jeju na Memória do Mundo da Unesco é um reconhecimento importante para a preservação da história de um período trágico da península coreana no século XX. Porém, ainda são necessários mais avanços no intuito de proporcionar justiça a uma população que até hoje enfrenta as consequências de décadas de silenciamento, retaliações e preconceitos.
Antes de entender quais caminhos precisam ser trilhados para a reparação das pessoas da ilha, é necessário explicar o que foi o Massacre de Jeju e a respectiva tentativa de destruição da memória da tragédia.
O que foi o Massacre de Jeju?
Apesar de também ser conhecido como 4.3 em referência a 4 de abril de 1948, data-chave para os acontecimentos, o desenrolar do massacre teve início um ano e um mês antes, mais especificamente em 1º de março de 1947, durante as manifestações no Dia do Movimento da Independência da Coreia (Moon, 2014).
Na época, os coreanos estavam há quase dois anos livres do colonialismo japonês, mas ainda havia muito o que protestar. Em Jeju, além de as manifestações serem uma homenagem a todas as pessoas que batalharam contra o domínio do Japão, também eram uma forma de clamar pelo fim dos grupos pró-japoneses remanescentes na região e em instituições de poder, de indignar-se com a corrupção policial e de demonstrar insatisfação com a presença de autoridades militares estadunidenses na ilha (Moon, 2014). Mas, neste mesmo dia, quando aproximadamente 30 mil pessoas se reuniram para celebrar o movimento de independência, as primeiras vítimas do 4.3 foram mortas a tiros pela polícia, sob autorização do Governo Militar do Exército dos Estados Unidos na Coreia (Moon, 2014).
Mais de uma semana depois, após as autoridades não tomarem nenhuma atitude em prol de justiça à população morta e ferida no tiroteio, os moradores da ilha decidiram entrar em greve. Mesmo assim, nada aconteceu. Um dos únicos registros sobre a situação foi citado pelo governo militar dos EUA para classificar a população de Jeju como “simpatizante de organizações de esquerda” (Moon, 2014).
Entre os protestos na região e o aumento da desconfiança dos Estados Unidos acerca do potencial revolucionário de Jeju, o 4 de abril de 1948 chegou. No dia, um grupo de civis iniciou uma revolta para se opor às eleições presidenciais marcadas para o próximo 10 de maio. À época, os Estados Unidos estavam há quase três anos com um governo militar presente na região sul, e a península ainda não estava oficialmente separada entre Coreia do Sul e Coreia do Norte. Porém, os moradores de Jeju, como também grande parte dos coreanos, acreditavam que a realização da primeira eleição promovida pelos EUA acarretaria na divisão permanente da península (Eperjesi, 2022). Apesar das repressões das autoridades, a ilha foi o único lugar na parte sul da Coreia onde as eleições não ocorreram (Eperjesi, 2022).
A partir de então, as disputas de civis armados contra os policiais, o exército militar estadunidense e grupos de jovens pró-direita se intensificaram, dizimando milhares de pessoas ao longo dos anos. De um lado, estavam os civis armados que lutavam por um país unificado e que exigiam o fim da influência dos EUA na península, principalmente na ilha; de outro, estavam o exército, a polícia e grupos de direita que tentavam conter os atos de rebelião dos moradores, sob a justificativa de uma ameaça comunista — discurso bastante comum na Guerra Fria.
Esse conflito trágico resultou em aproximadamente 30 mil mortes e 40 mil refugiados políticos, além da destruição de 95% das vilas situadas na região central da ilha (Eperjesi, 2022). Iniciado no Governo Militar dos Estados Unidos na Coreia e tendo perdurado no governo do ditador Syngman Rhee na recém-formada Coreia do Sul, o Massacre de Jeju acabou oficialmente em setembro de 1954, quando a proibição contra a entrada no Monte Halla foi suspensa (Kim, 2019), e os civis puderam entrar e sair da ilha.
O processo de silenciamento e a luta por reconhecimento
Entre as décadas de 1940 e 1950, Jeju não era uma ilha turística e estava distante do imaginário das pessoas que viviam no território central da Coreia. As informações do que acontecia ali raramente chegavam a outros lugares por causa das dificuldades típicas daquele tempo, como também devido à repressão dos meios de comunicação que atravessou o colonialismo japonês, perdurou no Governo Militar dos Estados Unidos na Coreia e continuou após a formação da Coreia do Sul em 1948, com as eleições presidenciais. Assim, mesmo com o fim do massacre, os moradores da ilha passaram mais de 40 anos em silêncio (Kim, 2000), por medo de serem considerados comunistas e temerem as consequências da ditadura militar.
Durante todas essas décadas, a população de Jeju era impedida de falar sobre os traumas e as violências que enfrentaram. Eles perderam familiares, foram torturados, viram quantidades incontáveis de pessoas mortas, não tiveram sequer a chance de enterrar seus entes e viveram um extenso período de terror por anos, mas ninguém comentava sobre o assunto.
A primeira discussão sobre a tragédia aconteceu com a revolução de abril de 1960 contra o presidente Syngman Rhee. Na época, estudantes da Universidade Nacional de Jeju iniciaram uma pesquisa com o objetivo de resgatar a história e promover justiça às vítimas, suscitando um movimento civil para solicitar uma investigação oficial acerca do massacre (Paik, 2018). Mas a Assembleia Nacional respondeu com uma única visita à região e posteriormente fechou o caso. Depois disso, o golpe de estado de 16 de maio de 1961 por Park Chung-hee pôs fim à busca pela verdade (Paik, 2018).
Com o Movimento Democrático de Junho, que iniciou em 1987, a luta pelo reconhecimento da tragédia de Jeju retornou com força. Desde então, houve debates, fundação de grupos de pesquisa, promulgação do “Ato Especial para Encontrar a Verdade sobre o Incidente de Jeju 4.3 e Restaurar a Honra das Vítimas” pela Assembleia Nacional, construção de memoriais, dentre outros. Até que, em 2025, um novo passo se deu com a inserção do massacre na Memória do Mundo da Unesco, em prol do reconhecimento internacional relacionado aos impactos da tragédia na vida da população de Jeju.
A memória do 4.3: o que ainda falta?
Depois de quatro décadas de silêncio e negligência das autoridades em relação ao massacre, ainda há um extenso caminho a seguir. Chang-hoon Ko, professor emérito da Universidade Nacional de Jeju e ativista na luta pela memória da tragédia, escreveu um artigo em 2004 sobre o que falta para uma efetiva reparação das vítimas. Apesar de o texto ter sido escrito há 21 anos, nenhuma das demandas do autor aconteceu neste milênio.
De acordo com Ko (2004), é necessário: entender a visão dos moradores da ilha acerca da unificação da Coreia na época dos protestos na década de 1940; cobrar a responsabilização dos Estados Unidos sobre seu papel no massacre; e buscar reparação histórica e financeira para as vítimas e seus familiares.
Outro reconhecimento imprescindível é citado por Kim (2019), sobre o direito das pessoas ao luto. Ao comentar sobre os ossos de vítimas da tragédia encontrados no Aeroporto Internacional de Jeju em 2007, ela atravessa a importância da procura de corpos de desaparecidos e o valor simbólico do enterro das vítimas. De acordo com ela (2019), a política da memória ainda é uma questão incompleta aos descendentes sobreviventes e os rituais de luto permanecem sendo contestados, porém os caminhos de debate sobre o tema devem continuar a ser construídos.
Se essas reparações virão em um futuro próximo, talvez seja impossível prever. Mas, a cada pesquisa, registro e descoberta, essa memória tem a chance de ressoar em diferentes gerações e chegar em novos lugares. Somente assim, a população de Jeju poderá um dia ter seu passado traumático reconhecido e combater o extenso período de silenciamento que enfrentaram no passado.
Referências
EPERJESI, John R.. The Jeju April 3 Incident and United States Imperialism. Jeju Forum Journal, Jeju, v. 1, [s.n.], p. 36-43, dez. 2022.
KIM, Se-jeong. Jeju April 3 Uprising archive added to UNESCO Memory of the World register. The Korea Times, 11 abr. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/lifestyle/koreanheritage/20250411/jeju-april-3-uprising-archive-added-to-unesco-memory-of-the-world-register. Acesso em: 19 abr. 2025.
KIM, Seong Nae. Mourning Korean modernity in the memory of the Cheju April Third Incident. Inter-Asia Cultural Studies, v. 1, n. 3, p. 461-476, [s.m.] 2000. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14649370020009951. Acesso em: 09 mai. 2025.
KIM, Seong Nae. Placing the Dead in the Postmemory of the Cheju Massacre in Korea. The Journal Of Religion, v. 99, n. 1, p. 80-97, jan. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1086/700337. Acesso em: 19 abr. 2025.
KO, Chang-Hoon. US Government Responsibility in the Jeju April Third Uprising and Grand Massacre: islanders’ perspective. The Korean Association For Local Government Studies, [s. l], v. 8, n. 2, p. 123-140, ago. 2004. Disponível em: https://www.dbpia.co.kr/journal/articleDetail?nodeId=NODE01756580. Acesso em: 19 abr. 2025.
MOON, Min-Young. Jeju 4.3. 2014. 77 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Interpretação e Tradução, Universidade Nacional de Jeju, Jeju, 2014. Disponível em: https://oak.jejunu.ac.kr/handle/2020.oak/20948. Acesso em: 08 mai. 2025.
PAIK, Chansik. Toward Justice in History: Achievements and Challenges on the Seventieth Anniversary of Jeju 4.3. Korean Humanities, v. 4, n. 2, p. 15-37, set. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.17783/IHU.2018.4.2.15. Acesso em: 09 mai. 2025.
PARK, Soul. The unnecessary uprising: Jeju island rebellion and south korean counterinsurgency experience 1947-48. Small Wars & Insurgencies, Notre Dame, v. 2, n. 21, p. 359-381, 21 jun. 2010. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09592318.2010.481432. Acesso em: 25 mar. 2025.
Sobre a autora
Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang.
E-mail: mclaracmenezes@gmail.com
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