Presença Militar dos EUA na Coreia do Sul: Entre Cooperação Estratégica e Descontentamento Social

Presença Militar dos EUA na Coreia do Sul: Entre Cooperação Estratégica e Descontentamento Social

por Thaisa Viana

Imagem: Voa Korea

Link: https://www.voakorea.com/a/4846739.html

No dia 28 de abril de 2025, o jornal The Korea Times denunciou as dificuldades enfrentadas por moradores da vila de Geolsan, localizada em Dongducheon província de Gyeonggi 一, devido à presença de instalações militares estadunidenses espalhadas pela região. Segundo a reportagem, os residentes enfrentam obstáculos significativos para chegar às suas casas e acessar serviços básicos, como atendimento hospitalar e ambulâncias. Em um caso específico, uma moradora relatou ter aguardado mais de 40 minutos pela chegada de uma ambulância em uma situação de emergência. Desde março de 2025, o caso tem sido propulsor de uma série de protestos de moradores da região em frente a base estadunidense de Camp Casey, instalada na região desde 1952.

 O episódio representa apenas mais um entre os inúmeros protestos que se espalham pela Coreia do Sul ao longo dos mais de 70 anos de cooperação militar com os Estados Unidos. A oposição à permanência das tropas estadunidenses em território sul-coreano vai além das questões de soberania nacional e do desejo político de autonomia, refletindo, sobretudo, os impactos diretos que a presença dessas bases impõe à vida cotidiana das populações locais.

 Desde 1950, com a formação da Coreia do Sul como Estado e a assinatura do Acordo de Defesa Mútua em 1953, os Estados Unidos consolidaram-se como o principal parceiro militar estratégico do país. Atualmente, com mais de 73 bases instaladas em território sul-coreano e um contingente de aproximadamente 26 mil soldados estadunidenses, a Coreia do Sul mantém uma parceria estratégica que inclui o apoio direto às suas próprias forças armadas, acesso à tecnologia militar estadunidense, garantia do guarda-chuva nuclear dos EUA, além de múltiplos pontos de apoio logístico e operacional. Essa presença não apenas é formalmente representada pelo comando das Forças dos Estados Unidos na Coreia (United States Forces Korea – USFK), que constitui um dos principais pilares da aliança bilateral em matéria de segurança, mas também financiada pela Coreia do Sul a partir do Special Measures Agreements (SMAs)¹. Outro pilar fundamental das relações de segurança entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul é o acordo referente ao Controle Operacional das forças armadas sul-coreanas (Operational Control – OPCON). Esse dispositivo estabelece que, em caso de guerra, o comando das forças armadas sul-coreanas seja transferido para o comando estadunidense, ficando sob controle sul-coreano apenas em tempos de paz. Firmado ainda na década de 1950, o acordo reforça a dependência estratégica da Coreia do Sul em relação aos Estados Unidos, assegurando a proteção militar estadunidense em situações de ameaça externa.

 Esses mecanismos de cooperação, entretanto, sustentam-se sobre uma estrutura local que frequentemente enfrenta os impactos negativos de uma administração estrangeira percebida como desrespeitosa para com as comunidades sul-coreanas, ambientalmente danosa e, em certos casos, até violenta. O caso da vila de Geolsan, em Dongducheon, é apenas um entre diversos exemplos do descontentamento popular em relação à presença militar estadunidense. Denúncias recorrentes envolvendo trabalho escravo em locais dentro das bases estadunidenses, poluição sonora e atmosférica, degradação ambiental nas áreas próximas às bases, bem como alegações de abuso de poder por parte de militares revelam uma realidade marcada por tensões e prejuízos para as populações locais.

 O caso mais emblemático ocorreu em 2000, quando a vida de duas jovens sul-coreanas foi ceifada por soldados estadunidenses que operavam um veículo militar fora do horário de serviço, na cidade de Yangju. O episódio desencadeou um movimento popular contrário à presença das bases estadunidenses, com protestos em forma de vigílias, que articularam o descontentamento popular a um apelo por maior autonomia das Forças Armadas sul-coreanas, além de uma reflexão crítica sobre os custos e a manutenção das tropas estrangeiras em território nacional que violentavam sua população local. O incidente teve repercussões significativas e impulsionou a reformulação do Status of Forces Agreement (SOFA) entre Coreia do Sul e Estados Unidos, passando a incluir não apenas diretrizes relacionadas às operacionalidades das bases e à logística militar, mas também dispositivos voltados à responsabilização penal de soldados estadunidenses e à regulamentação da convivência entre militares e a população local.

 Os aparatos legais estabelecidos pela SOFA, contudo, não são suficientes para apaziguar os descontentamentos populares. Enquanto uma parcela da população se apega a representações políticas e a desejos de proteção dos EUA, em uma narrativa de aliança fundamental para a sobrevivência da Coreia do Sul no cenário internacional 一 até mesmo em suporte pelo papel dos EUA durante a Guerra da Coreia e em um contentamento com a recente transferência das bases para regiões próximas à fronteira com o Norte² 一, alguns outros colhem os frutos de uma presença indesejada, inconveniente, que tem minado a vida de pequenos vilarejos como o de Geolsan. De acordo com o The Korea Times, o pequeno vilarejo tem desaparecido isolado, com apenas cerca de 98 habitantes, consequência do distanciamento provocado pela presença da base militar que corta a cidade.

 A reflexão sobre as bases militares estadunidenses na Coreia do Sul não se restringe a uma questão de segurança internacional ou de proteção nacional frente à ameaça do Norte, mas remete, também, aos anseios de uma população que levanta o questionamento: que tipo de proteção essas bases realmente oferecem, se o cotidiano ao redor se revela marcado por inseguranças e violações?

 

Notas

1. Acordo anexo ao Tratado de Defesa Mútua de 1966. O acordo versa sobre a responsabilidade financeira da Coreia do Sul na manutenção de tropas estadunidenses em seu território, estipulando metas de contribuição, formas de pagamento (em dinheiro e em compra de material para as bases), além de demais disposições e distribuições financeiras a serem feitas (USFK, 2014; ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 2021).

2. Segundo a VOA, cerca de 6 a cada 10 sul-coreanos ainda apoiam as bases estadunidenses no país. Esse número varia de acordo com o público, tendendo a ser menor entre mulheres e maior entre homens de 70 anos (sobreviventes da Guerra da Coreia) e entre homens de 20 a 30 anos.

 

Referências

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Acordo entre Estados Unidos da América e República da Coreia. 8 de Abril de 2021. Disponível em: https://www.state.gov/wp-content/uploads/2021/10/21-901-Korea-Defense-SMA.pdf. Acesso em: 03 Junho 2025.

COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. 1950 – 2023 The U.S.–South Korea Alliance. Council on Foreing Relations. 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/timeline/us-south-korea-alliance. Acesso em: 06 de Maio de 2025.

HUSSEIN, Mohammed; HADDAD, Mohammed. Infographic: US military presence around the world. Al Jazeera. 10 de Setembro de 2021. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2021/9/10/infographic-us-military-presence-around-the-world-interactive. Acesso em: 5 de Maio de 2025.

KIM, Young Kwon. [특파원 리포트] “한국인 10명 중 6명 주한미군 신뢰” ([Correspondent Report] “6 out of 10 Koreans Trust U.S. Forces in Korea). VOA KOREA. 23 de Março de 2019. Disponível em: https://www.voakorea.com/a/4846739.html. Acesso em: 5 de Maio de 2025.

LEE, Hae Ri; LEE, Hyo Jin. Mountain residents clash with US military over better access to village. The Korea Times. 28 de Abril de 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250428/mountain-residents-clash-with-us-military-over-better-access-to-village. Acesso em: 5 de Maio de 2025.

MANYIN, Mark E. et al. U.S.-South Korea Relations. Washington, D.C.: Congressional Research Service, 8 de Outubro de 2015. Disponível em: https://digital.library.unt.edu/ark:/67531/metadc795590/. Acesso em: 7 maio 2025.

USFK. Special Measures Agreement. News Stories USFK. 2 de Fevereiro de 2014. Disponível em: https://www.usfk.mil/Media/Newsroom/News/Article/600787/special-measures-agreement/. Acesso em: 03 Junho 2025.

 

Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e do Núcleo de Estudos Internacionais Brasil e Argentina (NEIBA-UERJ). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais. Email: thaisa.viana298@gmail.com

 

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