Visita de legisladores e oferenda de premiê japonês ao santuário Yasukuni causa desconforto nas Coreias

Visita de legisladores e oferenda de premiê japonês ao santuário Yasukuni causa desconforto nas Coreias

Por Thaisa Viana

Fonte:Yonhap

Imagem: Kyodo News

Link:https://english.kyodonews.net/news/2025/04/fb0f6adead9a-update1-japan-pm-ishiba-sends-offering-to-war-linked-yasukuni-shrine.html

No dia 22 de abril de 2025, a Coreia do Sul manifestou profundo pesar após o então primeiro-ministro japonês, Ishida Shigeru, enviar uma oferenda ao controverso Santuário de Guerra Yasukuni. Na mesma ocasião, o Ministério das Relações Exteriores sul-coreano, por meio de seu porta-voz Lee Jae-woong, condenou a visita de parlamentares japoneses ao local. De acordo com Lee, o governo sul-coreano expressou profunda decepção diante da continuidade das oferendas e visitas realizadas por líderes japoneses ao santuário.

 Ainda em comunicado para a imprensa, Lee afirma que:

[O governo da Coreia do Sul] insta os líderes japoneses a enfrentarem a história de forma honesta e a demonstrarem, por meio de ações, uma reflexão humilde e um arrependimento genuíno pelas questões históricas. Reiteramos que isso será a base para construir uma relação bilateral voltada para o futuro entre os dois países.(The Korea Times, 2025, tradução nossa).

Cerca de cinco dias após o pronunciamento da Coreia do Sul, a Coreia do Norte, através da Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA), critica as ações dos líderes japoneses, afirmando que este seria um dos “caminhos para a remilitarização”, como uma “forma de implantar constantemente e profundamente o veneno do militarismo em todo o arquipélago japonês, tendo o santuário como origem”. Ainda segundo a agência, o movimento seria parte de uma revisão histórica do Japão sobre seu passado, o qual tenta de forma sistematicamente rearmar o país não apenas militarmente, mas também politicamente.

 A unanimidade das reações decorre, sobretudo, da carga política e simbólica associada ao Santuário de Yasukuni. Designado como um local de homenagem aos japoneses mortos em combate, o santuário abriga os nomes de aproximadamente 2,46 milhões de combatentes, incluindo soldados que lutaram em nome do Império Japonês durante a Segunda Guerra Mundial e na ocupação de territórios como a Manchúria, a China e a Península Coreana. Entre esses homenageados encontram-se também criminosos de guerra condenados pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente¹ , como Hideki Tojo, ex-primeiro-ministro e general japonês na década de 1940, declarado culpado e executado por crimes de agressão e pelo tratamento desumano dispensado a prisioneiros de guerra.

A breve união das Coreias na condenação ao posicionamento japonês evidencia que as questões históricas continuam a representar pontos sensíveis nas relações diplomáticas, sendo frequentemente colocadas como pré-requisitos para o avanço das relações entre as Coreias e o Japão. As feridas do período colonial na Península Coreana revelam-se como mais do que meras narrativas nacionalistas ou memoriais: refletem tensões persistentes, sobretudo quando ações do governo japonês contradizem pedidos de desculpas anteriores e eventuais compensações monetárias.

Apesar do episódio, a oferenda ao Santuário de Yasukuni pode ser interpretada como uma iniciativa contida do primeiro-ministro Ishida Shigeru, que vem evitando visitar o local desde o início de seu mandato, em outubro de 2024. De acordo com o The Korea Times, a postura mais discreta adotada por Ishida em relação ao tema seria um sinal direcionado a Pequim e a Seul, indicando a intenção de melhorar as relações com a China e a Coreia do Sul.

Diante disso, surge o questionamento: estaríamos testemunhando uma nova fase na relação do Japão com seu passado, marcada por maior sensibilidade histórica, ou as ações de Ishida representariam uma estratégia pragmática de aproximação com países vizinhos, sem abrir mão de acenos a discursos revisionistas anteriores?

 

Nota

1) Também conhecido como Tribunal de Tóquio, responsável pelo julgamento e condenação dos responsáveis pelos crimes de guerra cometidos pelo Império do Japão, incluindo também crimes contra a paz e crimes contra a humanidade.

 

Referências

BORAM, Park. North Korea denounces Japan PM’s offering to war shrine. Yonhap News Agency. 27 de Abril de 2025. Disponível em: https://en.yna.co.kr/view/AEN20250427000200315?section=search. Acesso em: 29 de Abril de 2025.

KIM, Seung Yeon. Korea voices deep regret over Japan PM’s offering, lawmakers’ visit to war shrine. Yonhap News Agency. 22 de Abril de 2025. Disponível em: https://en.yna.co.kr/view/AEN20250422002900315?section=search. Acesso em: 29 de Abril de 2025.

KYODO NEWS. Japan PM Ishiba sends offering to war-linked Yasukuni shrine, no visit eyed. Kyodo News. 21 de Abril de 2025. Disponível em: https://english.kyodonews.net/news/2025/04/fb0f6adead9a-update1-japan-pm-ishiba-sends-offering-to-war-linked-yasukuni-shrine.html. Acesso em: 03 de Junho de 2025.

 

Sobre a Autora

Thaisa da Silva Viana

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA – UFMG) e do Núcleo de Estudos Internacionais Brasil e Argentina (NEIBA-UERJ). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais. Email: thaisa.viana298@gmail.com

 

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