Quando Ser Solteiro Não Significa Viver Sozinho
Por Denise Nobre
Livros recentes sobre famílias não convencionais compartilham a sabedoria de viver sem se casar.
Imagem: Da esquerda para a direita: “Envelhecendo sozinha” (Dongasia, 2023), “Duas mulheres morando juntas” (Storyseller, 2019), “A vida em uma casa de duas mulheres” (txt.kcal, 2021), “Quando três mulheres se juntam, a casa fica maior” (Sustain, 2024) e “Criando filhos sem casamento ou parto” (2022, Another Universe) – a imagem foi cortesia das editoras para o The Korea Herald.
Mais sul-coreanos do que nunca estão morando sozinhos — e escolhendo continuar assim. À medida que esse número cresce, também aumenta o número de livros que documentam uma nova forma de viver — uma que não gira em torno do casamento, dos filhos ou mesmo de laços sanguíneos.
– “Envelhecendo sozinha: como aqueles que escolheram ficar sozinhos envelhecem” por Kim Kyung-hee (Dongasia, 2023);
– “Duas mulheres morando juntas: o nascimento de uma família montada, nem sozinha nem casada”, de Kim Ha-na e Hwang Sun-woo (Storyseller, 2019);
– “A vida em uma casa de duas mulheres: um projeto para duas mulheres solteiras envelhecerem juntas — com segurança e felicidade”, por Tokki e Hotdog (txt.kcal, 2021);
– “Quando três mulheres se juntam, a casa fica maior: uma vida comunal surpreendentemente perfeita” por Kim Eun-ha (Sustain, 2024);
– “Criando filhos sem casamento ou parto” por Baek Ji-seon (2022, Another Universe);
– “Preparando-se para uma morte solitária: sobre a coragem e a liberdade de enfrentar a vida sozinho” por Choi-Chul-joo (Joongang Books, 2024)
Estes são apenas alguns dos títulos (traduzidos do inglês a partir da tradução direta do coreano) que apareceram nas prateleiras das livrarias [sul-coreanas] nos últimos anos, chamando a atenção de um público grande, mas ainda marginalizado na percepção pública.
Segundo dados de 2023, os lares de uma só pessoa somam 7,93 milhões — ou 35,5% de todos os domicílios —, um aumento em relação aos 7,16 milhões em 2021. De acordo com projeções do Statistics Korea, esse número deve ultrapassar 40% até 2052.
Ainda assim, as políticas e o discurso público da Coreia do Sul sobre lares de uma só pessoa têm sido, por muito tempo, reduzidos a uma narrativa familiar: jovens solteiros, pessoas na meia-idade divorciadas e idosos viúvos — segundo Kim Hee-kyung, autora de “Envelhecer sozinha” e ex-vice-ministra do Ministério da Igualdade de Gênero e Família (2019–2020).
Celebrando estilos de vida de solteiro
Talvez em resposta a essa visão estreita, um número crescente de pessoas que exploram arranjos de moradia além do casamento ou das tradicionais combinações de colegas de quarto está começando a se manifestar.
Vários livros surgiram celebrando a vida fora do modelo tradicional de casal casado, como “Não consigo evitar viver bem sozinha”, de Seen Aromi, publicado em fevereiro do ano passado. Embora o livro de Seen tenha atraído atenção especial, ele foi precedido e seguido por outros que exploraram caminhos semelhantes.
Como Seen aponta, escolher viver sozinho não significa rejeitar o casamento para sempre. Trata-se de reconhecer que existem outras maneiras de viver — caminhos além do casamento e da criação de filhos que estão sendo cada vez mais aceitos pela sociedade. Trata-se de expandir o leque de escolhas de vida para além das expectativas tradicionais.
Vozes com experiência
Embora vozes confiantes celebrando estilos de vida solteiros sejam ouvidas com mais frequência entre pessoas na casa dos 20 e 30 anos, histórias de pessoas de meia-idade vivendo sozinhas são menos comuns — mas cada vez mais vitais. Esse grupo demográfico está projetado para crescer significativamente no futuro próximo, tornando suas experiências essenciais para o debate mais amplo.
“Envelhecendo sozinha”, “Duas mulheres morando juntas” e “Criando filhos sem casamento ou parto” compartilham histórias duradouras que vão além de tendências.
“Duas mulheres morando juntas” conta a história de um grupo de mulheres que decidiu comprar um apartamento em 2016, formalizando uma família escolhida e construída com base na amizade. Publicado em 2019, o livro de Hwang Sun-woo e Kim Ha-na impulsionou uma onda de publicações semelhantes, refletindo um interesse crescente por arranjos domésticos alternativos — baseados em cuidado, companheirismo e autonomia, em vez do casamento.
Uma das principais motivações por trás do livro de Kim Eun-ha, “Quando três mulheres se juntam, a casa fica maior” (2024), foi o desejo de escapar de condições de moradia apertadas. O livro conta a história de três mulheres que se mudam juntas, juntando seus recursos para garantir um apartamento mais espaçoso — formando, no processo, uma família unida não por laços de sangue, mas pela confiança e por intenções compartilhadas.
Para muitos jovens coreanos, sair da casa da família geralmente significa alugar um pequeno apartamento de “um cômodo” — uma solução temporária frequentemente vista como uma medida provisória antes de finalmente “se estabelecerem” por meio do casamento ou de uma moradia mais convencional.
Em “Aging Solo” (Envelhecendo sozinha), a autora — que vive sozinha há mais de duas décadas — entrevistou 19 mulheres com idades entre 40 e 64 anos a partir do outono de 2021, buscando preencher uma lacuna nas narrativas predominantes. “Pessoas solteiras não vivem sozinhas”, escreve a autora, apresentando como aqueles que escolhem viver sozinhos formam redes de apoio com irmãos, amigos e suas comunidades locais — formando relacionamentos nos quais ambos dão e recebem ajuda.
Com entrevistas aprofundadas, o livro desmistifica a realidade de mulheres maduras e idosas que vivem sozinhas, desconstruindo estereótipos de isolamento e vulnerabilidade comumente associados ao envelhecimento solitário. Em vez disso, revela uma ampla gama de experiências — mulheres que construíram vidas ricas e significativas por meio de comunidades escolhidas, redes intergeracionais e autossuficiência intencional.
Baek Ji-seon, autora de “Criando filhos sem casamento ou parto”, adotou duas crianças em 2010 e 2013, tornando-se mãe solo por escolha. Sem cônjuge, construiu uma comunidade de cuidados com sua mãe e irmãos, criando efetivamente uma versão moderna de uma sociedade matriarcal. Sua decisão foi ousada, feita em um país onde a parentalidade solo é particularmente estigmatizada.
“Uma vez, um funcionário nada simpático de uma empresa de mudanças olhou para os rostos dos meus filhos e perguntou — quase com malícia — por que eles eram tão diferentes um do outro. Eu simplesmente deixei para lá. É claro que ele provavelmente nem pensou que eles eram adotados; provavelmente só queria insinuar que as duas crianças tinham pais diferentes”, escreve Baek.
Somente em 30 de dezembro de 2006, uma revisão das regras de execução da Lei de Adoção Especial permitiu que indivíduos solteiros adotassem crianças que haviam sido separadas de seus pais biológicos e designadas para proteção estatal. Posteriormente, em 9 de novembro de 2021, emendas à Lei Civil e à Lei de Litígios Familiares ampliaram ainda mais os direitos de adoção, permitindo que indivíduos solteiros adotassem por meio de acordos privados — como no caso amplamente divulgado da celebridade Hong Seok-cheon, que adotou sua sobrinha. Juntas, essas mudanças legais garantiram aos indivíduos solteiros todos os direitos e responsabilidades da paternidade legal.
Embora relate o cotidiano de Baek, o livro desafia normas profundamente enraizadas em torno da criação dos filhos, papéis de gênero e o que define um “lar adequado”. Oferece aos leitores a confiança para construir uma família em seus próprios termos, em vez de se conformar às estruturas impostas pela sociedade.
A ausência de narrativas masculinas
Entre esses livros, um se destaca em muitos aspectos: “Preparando-se para uma morte solitária: sobre a coragem e a liberdade de enfrentar a vida sozinho”, de Choi Chul-joo.
Escrito por um homem — uma voz rara nesse gênero —, o livro traz uma reflexão profundamente pessoal sobre a solidão após a perda da esposa e da filha, ambas para o câncer. Um episódio retrata sua vulnerabilidade silenciosa: ele não percebeu o aviso de bateria fraca na fechadura digital por conta da audição debilitada e acabou trancado do lado de fora da própria casa.
No entanto, sua história se destaca justamente porque narrativas semelhantes de homens sul-coreanos mais jovens são muito raras. Essa ausência levanta questões que são parcialmente respondidas por “Envelhecendo sozinha”, em que a autora desistiu de procurar um entrevistado homem. Ela entrevistou dois homens, mas acabou não os incluindo em seu livro.
“Na sociedade sul-coreana, onde o patriarcado permanece profundamente enraizado, a condição de solteiro de um homem tem pouco ou nenhum impacto em sua masculinidade, e as experiências de homens solteiros diferem muito das de mulheres solteiras. Os desafios de vida que eles consideram mais urgentes são fundamentalmente diferentes, dificultando a criação de uma narrativa única e coesa”, escreve a autora.
Como aponta a autora de Aging Solo, a solteirice masculina raramente é vista como um problema — pelo contrário, muitos homens permanecem solteiros sem enfrentar julgamentos sociais ou familiares. Além disso, pesquisas mostram que o casamento traz benefícios duradouros de felicidade para os homens, o que pode explicar por que muitos ainda o enxergam como um projeto positivo, ao passo que mulheres demonstram menos ganhos a longo prazo e mais frustrações nesse arranjo tradicional.
Apesar de mais homens do que mulheres estarem solteiros na Coreia do Sul, são elas que mais buscam formas alternativas de convivência e autonomia, como as famílias não convencionais ou o morar sozinha. Isso se dá, em parte, porque a solteirice feminina continua sendo alvo de vigilância moral e econômica. Mulheres enfrentam maiores dificuldades para acessar moradia, crédito e liberdade sobre seus próprios corpos, o que as empurra a pensar novas formas de existir em comunidade. O aumento de livros e conteúdos midiáticos que tratam dessas experiências tem contribuído para abrir espaço para novas narrativas — mas o silêncio dos homens, que permanecem ausentes desses relatos, sugere que o debate em torno de novas formas de viver solteiro ainda está marcado por uma assimetria de gênero importante.
REFERÊNCIAS
GA-YOUNG, Park. When being solo doesn’t mean living alone. The Korea Herald. Seul, 12 abr. 2025. Life & Culture. Reading Korea Through Books. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/10462712
NAGASUNA, Takahide. Single minded: South Korea’s non-marriage movement. NHK World Japan, 2024. Disponível em: https://www3.nhk.or.jp/nhkworld/en/news/backstories/3199/
RUDOLF, Robert; KANG, Sung-Jin. Lags and leads in life satisfaction in Korea: When gender matters. Feminist Economics, v. 21, n. 1, p. 136-163, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1080/13545701.2014.967708
SONG, Jesook. Living on your own: Single women, rental housing, and post-revolutionary affect in contemporary South Korea. State University of New York Press, 2014, p.1-3
SOBRE A AUTORA
Denise Nobre é graduanda em Letras Português-Coreano na Universidade de São Paulo, idealizadora e co-fundadora do podcast e portal de notícias Sarangbang. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por literatura coreana. E-mail: denisenobre@sarangbang.com.br
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