Reitoria da UFPE. Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Cidade Universitária, Recife/PE CEP 50670-901
rpf@ufpe.br

Trollar até a morte: a persistência do bolsonarismo nos tempos do Corona

Imagem do episódio de Black Mirror: The Waldo Moment

Trollar até a morte: a persistência do bolsonarismo nos tempos do Corona

Por Gabriel Peters | Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco

Thanatos e civilização

O gozo na destruição em suas múltiplas formas, da humilhação pela trollagem até o elogio da tortura e do assassinato de dissidentes políticos, já era característica ostensiva de Bolsonaro para qualquer um disposto a ouvir o que o homem veio dizendo ao longo das duas últimas décadas. Para que um personagem com seu histórico de ditos e feitos horrorosos pudesse ter sucesso nas últimas eleições presidenciais, no entanto, foi necessária uma convergência entre duas categorias de apoiadores. Enquanto uma abraçou com euforia raivosa a agenda destrutiva anunciada pela retórica bolsonarista, outra justificou seu voto em termos que, ao contrário, minimizavam aquele mesmo discurso de ódio, através dos exasperantes expedientes que todos ouvimos: “qualquer coisa é melhor do que a roubalheira do PT”, “ele diz essas coisas só para provocar”, “o que importa é recuperar a economia” e assim por diante. As consequências sociopolíticas da inesperada pandemia de Covid-19 tornaram ainda mais nítida a diferença entre esses dois tipos de eleitores de Bolsonaro, com a irresponsabilidade potencialmente mortífera do presidente aniquilando parte do apoio que ele possuía naquele segundo grupo. Descontando-se os membros dessa última categoria cuja ficha ainda não caiu, resta agora o desafio de examinar, com mais nitidez, a mentalidade dos bolsonaristas que o apoiam não apesar de seu programa de destruição e morte, mas por causa dele.

Como notaram observadores diversos, o “conservadorismo” de Bolsonaro et caterva está muitíssimo menos próximo do respeito à tradição e do melhorismo cauteloso de um Burke ou de um Oakeshott do que do dinamismo pregado pelos ideólogos da “revolução conservadora” na Alemanha dos anos de 1920 e 1930. Uma descrição do tipo de euforia e excitação experimentado por bolsonaristas fanáticos, um estado psíquico que abomina os rituais e frescuras morosas da democracia liberal-representativa, encontraria sentimentos aparentados àqueles com que Ernst Jünger (2004 [1920]), no caldo de cultura protofascista daquele período, pintou as sangrentas trincheiras da Primeira Guerra. Longe de representar o compromisso com o status quo, notava Walter Benjamin no olho mesmo do furacão que o mataria, o fascismo põe em marcha uma glorificação da destruição tão radical que se dispõe a abraçar, no limite, a autodestruição:

“‘Fiat ars – pereat mundus’, diz o fascismo e espera, como o reconhece Marinetti, da guerra a satisfação artística da percepção sensível alterada pela técnica. É esta claramente a última instância do l’art pour l’art. A humanidade, que em Homero fora um dia objeto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objeto de sua própria contemplação. Sua autoalienação atingiu tal grau que se lhe torna possível vivenciar a sua própria aniquilação como um deleite estético de primeira ordem. Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo” (Benjamin, 2018: XIX).

Assim como não se pode ameaçar de morte um homem-bomba, a glorificação da (auto)destruição recompensa o seu soldado com uma sensação de “invulnerabilidade”. Transposta ao plano discursivo, bem como transformada pelo prazer do cômico, essa atitude encontrou uma manifestação na figura do troll, cujo atrativo psíquico deriva de uma espécie de “invencibilidade” argumentativa, derivada do fato de que ele se coloca, de antemão, acima de quaisquer poderes de persuasão pelo discurso alheio (Keiser, 2018). 

A degradação estrutural da esfera pública

“Em que ano, que mês, que dia”, perguntou um perplexo Antonio Prata, “ficou decretado que o burro do fundão que bota tachinha na cadeira da professora tinha mais autoridade do que a professora?”. Como chegamos a ter um presidente que, na constatação de Contardo Calligaris, prefere “perder a presidência (e, infinitamente mais importante, deixar que milhares morram) do que perder a piada”? Uma resposta: começou quando a trollagem de direita se tornou um modo carismático, para muitos, de se fazer política.

Como uma espécie de complemento duas vezes mais doentio à cultura do linchamento virtual raivoso e aos excessos do “public shaming”, o troll é aquele que produz enunciados provocativos para se regozijar diante das reações de indignação e perplexidade que gera. Aquela sensação de invulnerabilidade tem um prato cheio para se deliciar aqui, já que, sendo o propósito do troll apertar os botões da raiva alheia, as respostas que recebe dos alvos de sua provocação surgem a ele como vitórias. Se você responde à sua provocação, pensa o troll, você já perdeu.

Em uma comunidade digital na qual trollagens são publicamente visíveis, o gozo na provocação pôde tornar-se uma competição entre trolls sempre em busca de provocações mais ousadas, isto é, de alvos sacrossantos até então considerados inatacáveis. Assim, em vez de botarem um freio à violação de tabus, as reações indignadas geradas pelos insultos só alimentam a vontade de radicalizar na estratégia do choque. Exemplos de alvos da trollagem extrema são perfis de Facebook de jovens adolescentes que cometeram suicídio, perfis que se tornam o equivalente de “memoriais virtuais” nos quais familiares e amigos deixam testemunhos de amor e saudade. Não tardou para que milícias de trolls invadissem espaços virtuais como estes, entupindo-os de mensagens ofensivas aos jovens falecidos para satisfazerem-se, então, com as respostas perplexas e indignadas de parentes e amigos (Seymour, 2016). Sendo primeiramente uma espécie de esporte no qual a recompensa psicológica é a excitação gerada pela capacidade de provocar de maneiras cada vez mais chocantes, a trollagem logo entraria na arena do debate político e, graças ao sucesso eleitoral de trolls como Trump e Bolsonaro, nas próprias posições de poder governamental.

Peço desculpas por citar Black Mirror de novo, mas uma ilustração dessa dinâmica sociopolítica aparecia em forma alegórica, mas tão próxima do real que quase deixa de ser alegoria, em um episódio da série distópica chamado “O momento Waldo” (2013). [Atenção: spoilers até o final do parágrafo!] Personagem de animação dublado por um ator, o ursinho azul Waldo leva sua boca suja e agressiva, bem como seu gosto por menções a pintos e peidos, para uma disputa eleitoral por um lugar no parlamento britânico. O bichinho torna-se cada vez mais popular entre eleitores graças aos insultos que dirige aos políticos profissionais, insultos embalados no discurso da raiva populista contra a importância que aqueles políticos se davam. Ao participar de debates televisionados somente para xingar e trollar os demais candidatos, Waldo desacredita o processo eleitoral e a política institucional como tais, contribuindo para instigar uma atmosfera de violência de turba que termina por escapar ao controle do próprio ator que encarnara o personagem no início do episódio, arrependido tarde demais.

O processo barbarizador

A ensaísta Francine Prose (2017) viu em Waldo uma prefiguração sinistra do sucesso eleitoral de Trump, ao qual poderíamos acrescentar aquele do Bozo logo depois. Os processos que resultaram na “trollização da política”, se me permitem a horrível paráfrase de Benjamin, são múltiplos. Eles incluem, por exemplo, o recurso à trollada como reação à vigilância discursiva estabelecida pelo “politicamente correto” e pelos assim chamados “guerreiros da justiça social”. Em um ambiente virtual com atenção crítica redobrada a ditos machistas, homofóbicos, racistas etc., aquele excitante esporte de trollar sensibilidades rapidamente se transmutou na diversão de escandalizar os “politicamente corretos”. O esporte logo encontrou intelectuais públicos dispostos a encarná-lo com maior ou menor talento retórico, como o terror dos “inteligentinhos” Luiz Felipe Pondé e o ex-astrólogo brasileiro Olavo de Carvalho. Ainda mais consequente, no entanto, foi o tremendo aumento de capital político que trolls vieram a receber da crise de legitimidade da democracia representativa, antecipado naquele episódio de Black Mirror. No contexto em que parte imensa da população enxerga a política “tradicional” como reino da hipocrisia generalizada, os políticos que dizem as coisas mais ofensivas passam a aparecer, para uma fatia significativa dessa mesma população, como as únicas figuras “autênticas”, as únicas dispostas a dizer o que “verdadeiramente” pensam. Melhor a sinceridade ofensiva, pensam tantos fãs dessa leva de políticos, do que a civilidade “hipócrita”. O fato de que essa aura de autenticidade e verdade tenha pairado precisamente sobre mentirosos desavergonhados e contumazes como Donald Trump e Jair Bolsonaro é parte das ironias tenebrosas de tempos sombrios (aliás, tão sombrios que a própria expressão deixou de ser somente metáfora, quando, parece que há um século atrás, a fumaça de florestas queimadas transformou o dia em noite em São Paulo).

Como já havia ocorrido com a enxurrada de ditos ofensivos de Trump, o carisma de Bolsonaro entre seus seguidores mais fanáticos não se manteve apesar dos horrores saídos da sua boca, mas por causa deles. Eles certificam sua identidade de provocador “corajoso” da esquerda politicamente correta, de herói da afirmação sincera de crenças propensas a chocar o mimimi alheio. A assimilação do conservadorismo à chatice careta impediu muitos na esquerda de atinarem com o fato de que, entre bolsonaristas e trumpistas de raiz, o carisma de seus heróis é composto dos mesmos atributos por trás do fascínio de rock stars: o prazer na transgressão de tabus e sensibilidades alheias. Em um coquetel nefasto, o bolsonarismo combinou a trollagem a outros dois traços imensamente influentes na formação de subjetividades políticas hoje: a “autoverdade” (na expressão de Eliane Brum) e a mentalidade paranoide.  

A obra da falsidade na era da sua reprodutibilidade digital

O senso de invulnerabilidade implicado na recusa do diálogo se traduz também na fantasia epistêmica de que a verdade sobre o mundo real é uma questão de escolha entre opiniões que valem objetivamente a mesma coisa – a opinião certa é, por definição, a minha. A exasperação que tantos de nós sentimos em relação às mentiras em série de um Bolsonaro ou de um Trump, à desfaçatez que os faz mentir e mentir sobre as mentiras (ad infinitum) quando confrontados, nos impede de ver que isto é exatamente o que torna essas figuras carismáticas para tantos de seus seguidores: jamais dar o braço a torcer, jamais admitir “derrota” em um debate (i.e., mudar de opinião ou aprender com um adversário), jamais supor que exista qualquer autoridade epistêmica maior do que a sua própria opinião sobre qualquer assunto. (Em tempo: diferentemente do Bozo, Trump já mudou de ideia quanto à seriedade do coronavírus, mas, como sempre, dirá não apenas que compreendeu a ameaça desde o início, mas também que a compreendeu antes e melhor do que qualquer outro).    

Bem antes do surgimento de bolhas informacionais impulsionadas por algoritmos digitais, a mente humana já era presa do que a psicologia cognitiva denomina “viés de confirmação” (Kahneman, 2011): a tendência a perceber os fenômenos do mundo segundo maneiras que confirmam nossas ideias prévias, tendência cuja contraparte é a neutralização inconsciente de informações que desafiem as mesmas ideias. A lógica algorítmica pela qual plataformas como o Youtube e o Facebook “customizam” as ofertas de informação aos seus usuários funciona como poderoso reforço digital dessa dinâmica psíquica, intensificando a inclinação dos seus usuários ao encastelamento em suas próprias posições políticas. O mecanismo é conhecido: se você assiste a um vídeo de Olavo de Carvalho no YouTube, o algoritmo da plataforma lhe recomendará uma série de outros vídeos não apenas do próprio guru da Virgínia, mas também de “produtores de conteúdo” situados em um espaço ideológico afim. Ainda que o propósito subjacente a esse mecanismo seja meramente mercadológico (i.e., “fidelizar” o cliente da plataforma pela oferta daquilo de que ele indica gostar), seus efeitos, no tocante à formação de subjetividades políticas, consiste em gerar bolhas informacionais que, quando não permanecem insuladas umas das outras, só se encontram na forma de entrechoques ferozes.

Mesmo dentro de um consenso mínimo quanto a certos fatos (p.ex., Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em 2008), estavam montadas as ilhas informacionais que imbuiriam os mesmos eventos de sentidos e interpretações radicalmente discrepantes (p.ex., Obama é ou não agente de um conluio globalista voltado à destruição da civilização cristã?). Em um contexto de virtualização radical da experiência, finalmente, a formação de bolhas informacionais chegou ao ponto de gerar não somente interpretações alternativas dos mesmos fatos, mas “fatos alternativos” – na imortal expressão da cínica trumpista Kellyane Conway. Durante quanto tempo pode-se viver nessa bolha de fatos alternativos sem pagar o preço por isso ou, ainda pior, fazer com que outros o paguem? Como escreveu Hannah Arendt no início dos anos de 1950, isto depende da disponibilidade de teorias e narrativas internamente consistentes fornecidas por ideólogos: 

A eficácia desse tipo de propaganda evidencia uma das principais características das massas modernas. Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam fatos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte. O que as massas se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita. Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência. A principal desvantagem da propaganda totalitária é que não pode satisfazer esse anseio das massas por um mundo completamente coerente, compreensível e previsível sem entrar em sério conflito com o bom senso” (Arendt, 1998: 400).

O estilo paranoide na política brasileira

Hannah Arendt descreve o que Richard Hofstader (1964) chamaria, logo depois, de estilo paranoide e conspiratorial de interpretação do mundo encarnado, com virtuosismo radioativo, pelo guru-mor do bolsonarismo.

A incerteza quanto aos desenlaces de um mundo hipercomplexo e repleto de perigos, ao gerar uma sensação aguda de ansiedade, exerce uma pressão psíquica em favor de teorias e narrativas que nos convençam de que, na verdade, toda aquela complexidade bagunçada é explicável à luz de um punhadinho de fatores. Apaziguadora também é toda narrativa que reduza nossa consciência quanto à contingência (“fortuidade”, no dizer de Hannah Arendt) da vida humana em sociedade, isto é, ao fato de que seus destinos finais não são plenamente controlados por ninguém, emergindo como resultados de forças e contraforças, ações e reações de uma multiplicidade de agentes com maior ou menor poder. Eis o terreno psíquico fértil em que vicejam interpretações conspiratoriais e paranoides do mundo, graças às quais a imensa complexidade de fenômenos sobre os quais nos informamos cotidianamente é reduzida, em nossas cabeças, por uma teoria explicativa sustentada de antemão. Dentre os milhares de exemplos possíveis, talvez o mais gritante seja a teoria direitista do “marxismo cultural”: abandonando a “guerra de movimento” como estratégia revolucionária, os esquerdistas teriam se lançado a uma “guerra de posição” para adestrar corações e mentes. Como? Ocupando praticamente todo o espaço de produção e difusão cultural: das universidades às editoras, das redes de televisão às redações de jornal e tutti quanti. Este teria sido o suposto ardil, por exemplo, dos membros da chamada Escola de Frankfurt, o mais satânico dos quais ainda arrumou tempo para escrever as músicas dos Beatles.

Ao ler o programa gramsciano para uma “revolução cultural”, Olavo de Carvalho, como é sabido, divulgou, desde os anos de 1990, sua conclusão de que ela vinha em pleno curso no Brasil desde os anos de 1960, quando a esquerda, tendo perdido a luta pelo aparato político para a ditadura militar, supostamente trouxera suas armas de persuasão ideológica para aqueles meios de produção cultural. Os textos do Olavo da década de 1990 já carregavam a paranoia com alto potencial de infecção que se tornaria tão devastadora nos anos subsequentes, mas eram, devo admitir, bem escritos (p.ex., quase nada da coprolalia que hoje empesteia seus posts de Facebook). Ao congregar em uma única imagem tudo o que a direita deve considerar ruim, o significante do “marxismo cultural” facilita um bocado a vida cognitiva de quem fica perplexo ante múltiplas correntes de pensamento. Para que investigar as diferenças entre o velho revolucionarismo leninista, digamos, e a desconstrução derridiana? Uma vez que forças e contraforças em ação num mundo complicado sejam sempre associadas a um único ator conspiratorial, basta inserir mais um qualificativo na lista de atributos do grande inimigo marxista-globalista-socialista-feminista-abortista-gayzista-satanista-Guarani-Kaiowá-do-Foro-de-São-Paulo.

Mas não existiram, ao longo da história da humanidade, conspirações levadas a cabo por atores poderosos que operavam secretamente? É claro que sim. Há uma diferença, no entanto, entre reconhecer a realidade de conspirações como fatores históricos e sustentar um estilo paranoide de interpretação do mundo tendente a compreender os processos sócio-históricos sempre e essencialmente em termos de conspirações. A diferença é o recurso à paranoia como um cacoete obsessivo que serve, de resto, como expediente para economizar energia mental, seja na busca de informações (p.ex., não ler textos diversos, não mapear diferentes posições, não comparar fontes etc.), seja na interpretação das informações coletadas (p.ex., a tendência a ver padrões em fenômenos contingentes, conspirações secretas em processos derivados de forças e contraforças etc.). Mas será que não existem interpretações paranoides e conspiratoriais de mundo oriundas da esquerda? Sem dúvida. Aliás, o gramscianismo invertido de Olavo de Carvalho é somente um exemplar de como os esquemas de interpretação do mundo partilhados pela nova direita se “inspiraram”, como notou Cynthia Hamlin (2020), em tropos clássicos do pensamento de esquerda.  

Seja sustentada com sinceridade, seja cinicamente vendida por seus gurus para um exército de incautos, a teoria paranoide e conspiratorial é outro mecanismo de produção da sensação de invulnerabilidade da própria visão de mundo. Por quê? Porque é da natureza mesma da paranoia, sobretudo quando ancorada em algum talento para o raciocínio engenhoso, a tendência ao enquadramento de qualquer pedaço novo de informação (ou não informação) como confirmação da veracidade de sua teoria delirante (p.ex., “não há qualquer evidência da conspiração x, mas isso só prova quão diabolicamente eficazes eles são em apagar seus rastros” e assim por diante). Por si só, uma paranoia engenhosa já se coloca em uma posição de absoluta imunização às críticas às suas visões de mundo, imunização perversa que Olavo e Bolsonaro reforçaram com uma (anti)ética do debate cujo propósito não é convencer o adversário, muito menos colocar as próprias posições em risco e expor-se a aprender com ele, mas destruí-lo por quaisquer vias, mesmo as mais baixas.

Conclusão

Na tentativa de oferecer uma interpretação das respostas bolsonaristas aos desdobramentos da Covid-19, supus que as informações relativas a tais respostas já são conhecidas por todas e todos nós. À luz do que foi dito anteriormente, a estratégia é clara: insistir na paranoia, insistir na trollagem, insistir na autoverdade, de preferência fazendo tudo isso ao mesmo tempo, como no tuíte do Ministro Abraham Weintraub presente na imagem do post. Em vez de acontecer como tragédia e se repetir como farsa, o bolsonarismo entrou agora na fase de tragédia farsesca, embora os componentes de farsa (p.ex., o 7 da 1 máscara no rosto de Bolsonaro) e tragédia (p.ex., seu cumprimento de uma idosa após limpar o nariz) possam variar. Infelizmente, uma das mais tristes lições da história é o fato de que mesmo bufões (ou bozos) ridículos, quando alçados ao poder político, são capazes de deixar atrás de si um rastro enorme de sofrimento e morte.

Referências

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.  

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: L & PM, 2018.

HAMLIN, Cynthia. “Breve comentário sobre coronavírus, guerra cultural e terraplanismo sanitário”. Blog do SocioFilo [https://blogdosociofilo.com/2020/04/09/notas-sobre-a-pandemia-coronavirus-guerra-cultural-e-terraplanismo-sanitario-por-cynthia-hamlin/]

HOFSTADER, Richard. The paranoid style in American politics and other essays. New York: Vintage, 1964. 

JUNGER, Ernst. Storm of steel. London: Penguin, 2004.

KAHNEMAN, Daniel. Thinking: fast and slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.

KEISER, Garret. “Nihilist nation. The empty core of the Trump mystique”. New Republic, October 25, 2018.  [https://newrepublic.com/article/151603/nihilist-nation-empty-core-trump-mystique]

KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

NICHOLS, Tom.  The death of expertise. Oxford: Oxford University Press, 2017.

PROSE, Francine. “The dystopia in the mirror”. New York Review of Books, January 9, 2017 [https://www.nybooks.com/daily/2017/01/09/dystopia-in-the-mirror-black-mirror/]

RODRIGUES, André. “Só destruição, sem arquitetura: o bolsonarismo como desejo de morte”. Revista Escuta [https://revistaescuta.wordpress.com/2020/03/26/so-destruicao-sem-arquitetura-o-bolsonarismo-como-desejo-de-morte/?fbclid=IwAR35z570ZsOSZ7V84hl2pOKIO-6NQm8f3OCVW7vAzgzOrqpQVyOvm-jgltM]

ROSA, Pablo Ornelas. Fascismo tropical. Vitória: Milfontes, 2019.  

SAFATLE, Vladimir. “Bem-vindo ao estado suicidário”. n – 1 edições [https://n-1edicoes.org/004]

SEYMOUR, Richard. “Schadenfreude with bite”. London Review of Books, v. 38, n. 24, 15 December 2016.

 

Nenhum comentário

Adicione seu comentário